Ilustração de ossificação heterotópica em tecidos moles próximos ao quadril após lesão medular

Ossificação Heterotópica na Lesão Medular: Meu Exame

Durante quase 23 anos vivendo com tetraplegia, eu já ouvi muitos termos ligados à lesão medular. Mas “ossificação heterotópica” foi um deles que só apareceu claramente para mim agora, em 2026, quando voltei a olhar com atenção o laudo de uma tomografia feita no Hospital SARAH Belo Horizonte.

Há cerca de três ou quatro anos eu já vinha percebendo que minhas pernas e meu quadril estavam ficando mais presos. Quando estou deitado e jogo os joelhos para um lado, meu tronco acompanha o movimento. Para o lado esquerdo, noto uma limitação maior: a perna direita parece segurar mais e a coxa não chega a encostar na cama. Para o lado direito, consigo descer um pouco mais.

Isso não significa que toda essa limitação seja causada pela ossificação. Eu já convivo há muitos anos com espasticidade e sempre tive dificuldade para abrir as pernas. O que mudou foi perceber que alguns movimentos laterais vêm ficando mais limitados.

O exame finalmente colocou um nome técnico em pelo menos uma alteração que existe no meu corpo. E, ao mesmo tempo, abriu várias perguntas que ninguém ainda me respondeu. Neste artigo:

O que apareceu na minha tomografia de 2026

Trecho anonimizado do laudo da tomografia de pelve descrevendo ossificações heterotópicas nas coxas

A tomografia computadorizada da pelve foi realizada em 3 de junho de 2026, no Hospital SARAH Belo Horizonte. O laudo descreveu calcificações de partes moles nos compartimentos posterolaterais das coxas, na região dos músculos glúteos, de forma assimétrica e com maior extensão à direita. O próprio laudo classificou esses achados como compatíveis com ossificações heterotópicas.

Isso chamou minha atenção porque, no dia a dia, é justamente quando jogo as pernas para o lado esquerdo que percebo a perna direita segurando mais o movimento. Mesmo assim, eu não posso concluir sozinho que essa diferença é causada pela ossificação. Espasticidade, contraturas e outras alterações também podem limitar o movimento.

Neste artigo, publiquei somente o trecho clinicamente relevante do exame, com meus dados pessoais e identificadores ocultados.

O que é ossificação heterotópica

Ossificação heterotópica ao redor do quadril e da coxa direita

Em linguagem simples, ossificação heterotópica é a formação de tecido ósseo em um lugar onde normalmente não deveria existir osso, como músculos e outros tecidos moles próximos das articulações.

Depois de uma lesão medular, essa formação óssea pode acontecer principalmente ao redor do quadril e, com menor frequência, em outras articulações. Dependendo da localização e da quantidade de osso formado, ela pode diminuir a amplitude de movimento e, nos casos mais importantes, interferir em higiene, posicionamento, transferências e outras atividades.

Isso é diferente de dizer que “a junta está calcificando”. A ossificação heterotópica é um processo específico de formação de osso fora do esqueleto normal.

O projeto Spinal Cord Injury Research Evidence (SCIRE) (em inglês) descreve a ossificação heterotópica como uma complicação reconhecida da lesão medular e aponta o quadril como o local mais comum.

Quando ela costuma aparecer após a lesão medular

Esse foi um dos pontos que mais me chamou atenção durante a pesquisa. A literatura médica descreve que a ossificação heterotópica neurogênica costuma começar relativamente cedo depois da lesão medular, muitas vezes nos primeiros meses.

No meu caso, a lesão aconteceu em 2003 e eu só vi esse diagnóstico claramente documentado em 2026. Isso não permite dizer que a ossificação começou agora ou que começou quando passei a perceber mais rigidez, há três ou quatro anos. Uma tomografia mostra o que existe no momento do exame, mas, sozinha, não informa exatamente quando aquele osso começou a se formar.

Também não sei se exames antigos já mostravam alguma alteração e ela não foi comentada comigo. As tomografias que fiz dessa região foram no SARAH. Fora de lá, lembro de ter feito radiografias, mas ninguém havia me falado anteriormente em ossificação heterotópica.

O que eu senti — e o que não senti

Eu não me lembro de ter apresentado, junto com essa piora da rigidez, uma fase de inchaço no quadril ou na coxa, vermelhidão, calor local, febre, dor nova ou aumento diferente dos espasmos.

Existe uma limitação importante no meu caso: eu não tenho sensibilidade normal nessa região. Portanto, alguns sinais que dependem de dor ou percepção de temperatura poderiam passar despercebidos.

A literatura descreve que a ossificação heterotópica pode causar redução da amplitude de movimento, inchaço, calor, vermelhidão e dor quando a pessoa tem sensibilidade preservada. Mas ela também pode ser pouco sintomática. Em pessoas com lesão medular, isso pode tornar a percepção mais difícil.

Eu tive, anos atrás, um episódio diferente de vermelhidão em toda a perna direita, inclusive com bolhas, que na época associei a uma possível erisipela. Não tenho qualquer elemento para ligar aquele episódio à ossificação e, por isso, trato as duas coisas separadamente.

Ossificação, espasticidade, contratura e osteoporose não são a mesma coisa

Essa distinção é importante porque várias alterações podem produzir uma sensação parecida de “perna presa”.

Espasticidade é uma alteração do controle muscular causada pela lesão do sistema nervoso. No meu caso, muitas vezes a perna oferece resistência e, quando a pessoa vai movimentando e segurando devagar, o espasmo cede um pouco.

Contratura é uma limitação mais fixa relacionada ao encurtamento e à perda de elasticidade de músculos, tendões, cápsula articular e outros tecidos. Ela pode coexistir com espasticidade.

Ossificação heterotópica, por outro lado, significa que existe tecido ósseo formado dentro de tecidos moles. No meu caso, isso não é apenas uma sensação: está descrito na tomografia.

Osteoporose é outra condição completamente diferente. Nela, o problema é a perda de densidade e resistência do osso normal do esqueleto. Eu também tenho diagnóstico de osteoporose na tetraplegia, mas uma condição não deve ser confundida com a outra.

Calcificação de vasos sanguíneos e alterações degenerativas das articulações também são processos diferentes e precisam ser identificados pela avaliação clínica e pelos exames adequados.

Fisioterapia poderia ter evitado a ossificação?

Essa é uma das perguntas que mais me incomodaram quando vi o resultado. Durante muitos anos eu pensei que deixar uma pessoa muito tempo sem movimentar as pernas poderia fazer tudo “endurecer”. Já vi outros pacientes com limitações graves e, sem conhecer o diagnóstico deles, eu associava aquilo ao que chamava genericamente de calcificação.

Depois de pesquisar melhor, não encontrei base para afirmar que a minha falta de fisioterapia contínua tenha causado a ossificação heterotópica. Também não seria correto dizer que exercícios ou alongamentos teriam necessariamente impedido que ela aparecesse.

A literatura sobre amplitude de movimento e mobilização é mais cuidadosa. Exercícios ativos ou passivos podem fazer parte da reabilitação para preservar mobilidade, mas ainda existem dúvidas sobre a intensidade ideal quando há ossificação. Movimentos forçados ou manipulações agressivas não devem ser tratados como solução automática.

No meu caso existe ainda outro fator: a osteoporose. Por isso, força excessiva durante exercícios, transferências ou alongamentos é uma preocupação separada, relacionada ao risco de lesões e fraturas. Foi justamente por isso que, no artigo sobre fisioterapia na tetraplegia, eu reforcei a importância de orientação profissional para fazer os movimentos corretamente.

A American Academy of Physical Medicine and Rehabilitation (em inglês) também ressalta que o papel da amplitude de movimento na prevenção e no tratamento da ossificação heterotópica ainda tem pontos de incerteza e deve ser individualizado.

Como a ossificação heterotópica é investigada

O diagnóstico combina avaliação clínica e exames de imagem. A radiografia pode mostrar osso heterotópico quando ele já está mais mineralizado, mas pode não detectar as fases iniciais.

Ultrassom e cintilografia óssea podem ser usados em situações de investigação mais precoce. A tomografia computadorizada, como a que eu fiz, permite visualizar com mais detalhes a localização e a extensão do osso formado e é especialmente útil quando é necessário entender a anatomia da região.

Alguns exames de sangue, como fosfatase alcalina e marcadores inflamatórios, podem se alterar durante fases de formação ativa, mas eles não confirmam ou excluem sozinhos a ossificação heterotópica.

No meu caso, o ponto principal agora não é descobrir se existe ossificação — isso já está descrito no laudo. O que ainda falta é um profissional avaliar a importância daquele achado para a minha limitação de movimento, se ele parece antigo ou ainda necessita investigação complementar e qual acompanhamento faz sentido.

Existe tratamento para ossificação heterotópica?

Existe tratamento, mas ele depende muito da fase em que a ossificação é descoberta, de sua localização, da atividade do processo e principalmente do impacto funcional.

Alguns medicamentos anti-inflamatórios foram estudados para reduzir o risco de formação de ossificação quando usados precocemente em determinadas situações, especialmente na fase aguda após lesão medular ou ao redor de procedimentos cirúrgicos. Isso não significa que tomar um anti-inflamatório agora faria desaparecer o osso que já está formado.

Bisfosfonatos também aparecem na literatura, mas a evidência é limitada e varia conforme a fase da doença. Radioterapia é utilizada em situações selecionadas, principalmente em contextos específicos de prevenção ou ao redor de cirurgia.

Quando a ossificação produz uma limitação funcional muito importante — por exemplo, impedindo higiene, posicionamento, transferências ou causando anquilose da articulação — a retirada cirúrgica pode ser considerada. É uma decisão especializada, porque envolve riscos e também possibilidade de recorrência.

Hoje eu ainda consigo abrir as pernas o suficiente para fazer higiene, consigo vestir roupa, sentar na cadeira e usar meu guincho. A principal dificuldade que percebo é durante alguns exercícios e ao tombar as pernas para os lados. Portanto, eu não posso olhar para um tratamento descrito em uma pesquisa e concluir que ele é indicado para mim.

As perguntas que ainda quero levar ao médico

O que mais me incomodou não foi apenas descobrir esse nome no exame. Foi perceber que eu saí da consulta sem uma explicação sobre ele.

Na consulta de 2026, eu senti que o atendimento foi muito rápido e superficial. O médico não me explicou o que significavam essas ossificações, não falou de tratamento, fisioterapia específica, ortopedista, cirurgia, acompanhamento ou necessidade de novos exames. Ele também não disse que “isso aconteceria comigo de qualquer maneira”. Essa foi apenas a impressão que ficou em mim pela falta de orientação.

Hoje, as perguntas que eu gostaria de esclarecer com um profissional que avalie o exame completo são: quanto dessa limitação que eu sinto realmente pode ser explicada pela ossificação; se o maior volume à direita tem relação com a diferença de movimento que percebo; se o aspecto da tomografia sugere uma ossificação já madura; se é necessário algum acompanhamento de imagem; quais movimentos são seguros para mim considerando também a osteoporose; e em que situação algum tratamento específico seria indicado.

Também quero entender quais sinais deveriam fazer com que eu procurasse atendimento mais rápido. Inchaço novo, vermelhidão, calor, febre ou uma perda súbita de movimento não devem ser automaticamente atribuídos à ossificação, porque outras condições, como infecção ou trombose, podem produzir manifestações parecidas e precisam ser avaliadas.

O que eu aprendi ao finalmente ler esse resultado com atenção

Até ver o laudo com outros olhos, eu não fazia ideia do que significava ossificação heterotópica. Eu sabia, pela convivência com outras pessoas com lesão medular, que algumas pessoas podiam ficar com articulações extremamente limitadas, mas eu não conhecia os mecanismos nem sabia separar uma coisa da outra.

Agora eu sei pelo menos uma coisa com certeza: existe ossificação heterotópica descrita na minha tomografia, com maior extensão à direita. O que eu ainda não sei é quanto ela explica das limitações que venho percebendo e qual será a evolução no meu caso.

Fico chateado por não ter recebido essas explicações durante a consulta. Quando a gente vive com uma lesão medular há tantos anos, não espera que o médico tenha todas as respostas, mas espera pelo menos sair sabendo o que apareceu no exame e quais são os próximos passos possíveis.

Eu ainda tenho dúvidas e preocupações. Ao mesmo tempo, continuo vivendo um dia de cada vez. Minha fé sempre teve um papel muito grande na forma como enfrento tudo isso. Materialmente, muitas vezes é difícil conseguir o acompanhamento que a gente gostaria, mas sigo acreditando que minha vida está nas mãos de Deus.

Importante: este artigo relata a minha experiência pessoal com tetraplegia e um achado documentado em meu exame. Ossificação heterotópica pode ter apresentações e repercussões diferentes em cada pessoa. Limitação de movimento, inchaço, vermelhidão, calor ou febre precisam ser avaliados por profissional de saúde, principalmente quando surgem de forma nova ou rápida.

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