Escara — ou úlcera de pressão, o nome técnico — é um dos maiores desafios de quem vive numa cadeira de rodas há muito tempo. Eu tenho duas: uma maior, no glúteo esquerdo, e uma menor, quase fechando, no glúteo direito. Passei 23 anos aprendendo, na base do erro e acerto, o que realmente funciona para conviver com elas sem que piorem — e vou compartilhar aqui exatamente o que uso no meu dia a dia.
Isso não substitui orientação médica: cada lesão medular tem suas particularidades, e o que funciona para mim pode não ser igual para você. Mas se ajudar alguém a economizar tempo e dinheiro testando coisas que eu já testei sem sucesso, o texto já cumpriu seu papel.
O que eu já tentei e não funcionou
Antes de chegar na solução que uso hoje, testei várias opções: espuma tipo “da NASA” (viscoelástica), colchão de espuma com água, e também de ar. Nenhuma dessas resolveu o meu caso. Como fico sentado de 10 a 12 horas por dia, a pressão é constante, e essas alternativas não seguravam a pressão do jeito que eu precisava.
O que funciona para mim: espuma tipo “caixa de ovo”, densidade 33
O que realmente funcionou foi um colchão de espuma tipo “caixa de ovo” (aquele com relevo, parecido com uma caixa de ovos) — mas só funciona na densidade 33. Já testei densidades mais baixas e não seguram a pressão da mesma forma.
O truque que uso: compro um colchão de casal com essa espuma e corto no tamanho do assento da minha cadeira. Um colchão de casal sai por cerca de R$ 200, e rende várias peças no tamanho certo — sai mais em conta do que comprar uma almofada específica para cadeira de rodas, que custa cerca de R$ 70 cada e rende só uma peça. Eu uso duas camadas de espuma sobrepostas no assento.
Mesmo com essa espuma, como fico muito tempo sentado, minhas escaras não fecham completamente — mas vão fechando aos poucos, devagar. O objetivo não é uma solução mágica, é reduzir a piora e dar condição de cicatrização com o tempo.
O que diz a literatura técnica: a densidade D33 (cada metro cúbico da espuma pesa 33kg) é considerada referência para uso intensivo — acima de 8 horas sentado por dia — e é inclusive usada como padrão hospitalar em espumas piramidais para prevenção de escaras. Ou seja, o que aprendi na prática, testando por conta própria, bate com o que a literatura técnica recomenda para quem passa muitas horas sentado.
Acompanhando a evolução com fotos
Uma coisa que faço sempre é tirar foto da escara e comparar no computador com fotos de dias anteriores — a de ontem, a de três dias atrás. Vou olhando uma a uma para perceber se está abrindo, se o tamanho está diminuindo ou aumentando. Isso ajuda a enxergar a evolução real, porque no dia a dia é difícil perceber pequenas mudanças só de olho, sem comparar com uma referência de alguns dias atrás.
Aliviando a pressão: mudança de posição
Outra prevenção importante é fazer o que chamo de “elevação com o bumbum” — tirar o peso do local por alguns minutos, algumas vezes por hora, para aliviar a pressão constante.
Isso funciona diferente dependendo do tipo de cadeira:
- Cadeira manual: dá para pedir para alguém virar a cadeira levemente para trás, aliviando a pressão nos glúteos. Faço isso umas 2 a 3 vezes dentro de uma hora.
- Cadeira elétrica: esse movimento manual não funciona da mesma forma — nesse caso, é necessário um guincho para fazer a suspensão e aliviar a pressão.
Guincho para Transferência/Elevação
Como referência de frequência: procuro mudar de posição (quando deitado) no máximo a cada três horas, e na cadeira, fazer o alívio de pressão cerca de três vezes a cada hora.
Outros locais de risco (não é só o glúteo)
Além dos glúteos, é importante examinar sempre as laterais das pernas, coxas e calcanhares — já tive escara na lateral da perna direita e na parte interna da perna esquerda também. Uma delas chegou a precisar de debridamento numa UPA: é o procedimento em que o profissional remove com bisturi todo o tecido morto e infeccionado, deixando a área vermelha (tecido saudável), para permitir a cicatrização em casa a partir dali.
Por isso, a prevenção não é só cuidar de onde você já tem escara — é examinar regularmente todas as áreas de contato e pressão, para pegar qualquer início de lesão o quanto antes.
Cuidado diário com o curativo
Faço a troca do curativo uma vez por dia. Quando consigo pegar no posto de saúde, uso uma placa de alginato dentro do curativo — é um material feito de fibras de algas marinhas, indicado justamente para feridas com secreção moderada a alta, como é o caso de escaras mais profundas. Ao entrar em contato com a secreção, ele forma um gel que mantém o ambiente úmido e ajuda na cicatrização, além de ter ação antimicrobiana. Quando não tem disponível no posto (o que acontece), lavo o local com soro fisiológico ou água filtrada e sigo só com o curativo comum, sem alginato.
Vale reforçar: o uso de alginato e de outros curativos especiais deve ser sempre orientado por um profissional de saúde (enfermeiro ou médico), especialmente em feridas mais profundas — cada caso tem suas particularidades.
Como eu identifico se a escara está piorando
Ao longo desses anos aprendi a reconhecer os sinais pela aparência e pelo cheiro:
Escara em boas condições: aparência avermelhada — isso indica tecido saudável, em processo de cicatrização.
Escara piorando: aparência esbranquiçada ou meio amarelada, como se estivesse crostada. Esse é um sinal de alerta.
Sinal de infecção: secreção escura, com mau cheiro. No meu caso específico, uma escara infeccionada costuma vir acompanhada de febre — mas isso não é regra geral, é algo que percebi no meu próprio corpo ao longo do tempo. Cada pessoa pode reagir diferente, então vale sempre conversar com um profissional de saúde diante desses sinais.
Resumo prático
- Espuma tipo caixa de ovo, densidade 33 (densidades menores não funcionaram para mim)
- Colchão de casal cortado no tamanho do assento sai mais barato que almofadas prontas
- Fotografe a escara regularmente e compare com dias anteriores para acompanhar a evolução
- Alivie a pressão algumas vezes por hora (manualmente na cadeira manual, ou com guincho na elétrica)
- Examine também as laterais das pernas, coxas e calcanhares, não só os glúteos
- Troca de curativo uma vez por dia, com alginato quando disponível (ou soro/água filtrada quando não tiver)
- Vermelho = cicatrizando bem; esbranquiçado/amarelado = piorando; secreção escura com odor (e possivelmente febre) = sinal de infecção, procure atendimento
Se você também é cadeirante e tem uma rotina diferente que funciona, comente — quanto mais gente compartilhando o que realmente funciona, melhor para todos nós que vivemos isso todos os dias.
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