Cadeira de rodas com almofada para ajudar a prevenir escaras

Como eu previno escaras na prática (depois de 23 anos testando o que funciona)

Escara — também chamada de lesão por pressão — é um dos maiores desafios de quem vive numa cadeira de rodas há muito tempo. Eu tenho duas: uma maior, no glúteo esquerdo, e uma menor, quase fechando, no glúteo direito. Passei 23 anos aprendendo, na base do erro e acerto, o que funciona melhor no meu caso para prevenir novas lesões e cuidar das que já apareceram — e vou compartilhar aqui exatamente o que uso no meu dia a dia.

Isso não substitui orientação de profissionais de saúde: cada pessoa tem mobilidade, pele, circulação, nutrição, equipamentos e outras condições diferentes. O que funciona para mim pode não ser adequado para outra pessoa. Mas, se minha experiência ajudar alguém a conhecer alternativas e conversar melhor com os profissionais que o acompanham, o texto já cumpriu seu papel.

O que eu já tentei e não funcionou

Antes de chegar na solução que uso hoje, testei várias opções: espuma tipo “da NASA” (viscoelástica), colchão de espuma com água e também de ar.

No assento da minha cadeira, nenhuma dessas alternativas funcionou tão bem quanto a solução que uso hoje. Como fico sentado de 10 a 12 horas por dia, precisava de uma superfície que, na minha experiência, mantivesse melhor o apoio durante esse período.

O que funciona para mim: espuma tipo “caixa de ovo”, densidade 33

Espuma caixa de ovo D33 usada por Ronaldo no assento da cadeira

O que melhor funcionou para mim foi uma espuma perfilada tipo “caixa de ovo”, aquela com relevo parecido com uma caixa de ovos, na densidade 33. Já experimentei densidades menores e, no meu caso, elas comprimiam mais e não me davam o mesmo resultado.

O jeito que encontrei para gastar menos foi comprar um colchão de casal desse material e cortar no tamanho do assento da cadeira. Um colchão rende várias peças, enquanto uma almofada pronta rende apenas uma. Eu uso duas camadas de espuma sobrepostas no assento.

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Essa é uma adaptação que funcionou na minha rotina, mas não significa que D33 seja a densidade ideal para todas as pessoas. A escolha de uma superfície para redistribuição de pressão depende de fatores como peso, postura, mobilidade, tempo sentado e condição da pele.

As diretrizes atuais recomendam que pessoas com risco de lesão por pressão utilizem superfícies de assento com capacidade de redistribuição de pressão, escolhidas de acordo com fatores individuais como dimensões corporais, necessidades funcionais, postura, estabilidade, sensibilidade e conforto.

Existem também estudos específicos com espuma D33. Um ensaio clínico encontrou menor ocorrência de lesões de pele relacionadas ao posicionamento cirúrgico com o uso de espuma D33 como superfície de apoio. É importante observar que esse estudo foi realizado em pacientes durante cirurgias, e não no uso diário de cadeira de rodas. Por isso, não dá para concluir a partir dele que a D33 seja obrigatoriamente a melhor densidade para todo cadeirante.

Mesmo com essa espuma, como fico muito tempo sentado e já tenho lesões, minhas escaras não fecham rapidamente. Por isso, não vejo a espuma como solução mágica: ela é apenas uma parte dos cuidados que faço para reduzir a pressão sobre a região.

Acompanhando a evolução com fotos

Uma coisa que faço sempre é tirar fotos das lesões e comparar no computador com fotos de dias anteriores — a de ontem, a de três dias atrás ou de outros períodos.

Isso me ajuda a perceber mudanças de tamanho e aparência que podem passar despercebidas de um dia para o outro.

As fotos, porém, servem como registro da minha evolução. Não uso uma imagem isolada para decidir se uma lesão está cicatrizando bem ou se está infectada. A avaliação da pele e dos tecidos leva em consideração diferentes alterações e sinais, e não apenas uma cor específica.

As diretrizes internacionais destacam a importância da avaliação visual e tátil da pele e dos tecidos para identificar alterações e sinais precoces de lesão por pressão.

Como aliviar a pressão para prevenir escaras

Cadeira de rodas inclinada para alívio de pressão

Outra medida importante na minha rotina é aliviar periodicamente o peso que fica concentrado nos mesmos pontos.

Eu costumo fazer o que chamo de “elevação com o bumbum”: retirar temporariamente a pressão da região onde estou apoiado.

Na minha rotina funciona assim:

  • Cadeira manual: alguém inclina minha cadeira cuidadosamente para trás, retirando parte da pressão dos glúteos. Costumo fazer isso algumas vezes durante a hora.
  • Cadeira elétrica: no meu caso, como não consigo fazer sozinho uma manobra de alívio suficiente, preciso da ajuda de outra pessoa e, quando necessário, utilizo o guincho.

Guincho para Transferência/Elevação

Isso não significa que toda pessoa que usa cadeira elétrica precise de guincho. Algumas cadeiras possuem recursos de inclinação ou reclinação, e outras pessoas têm força e mobilidade suficientes para realizar manobras de alívio de pressão por conta própria.

Não existe um único intervalo de mudança de posição que sirva para todas as pessoas. A diretriz internacional sobre reposicionamento recomenda que a frequência seja individualizada considerando fatores como mobilidade, capacidade de mudar de posição, condição clínica, tolerância da pele e superfície utilizada.

No meu caso, quando estou deitado, procuro não permanecer muitas horas exatamente na mesma posição. Na cadeira, tento fazer alívios de pressão várias vezes ao longo do período em que fico sentado.

Outros locais de risco — não é só o glúteo

Além dos glúteos, presto atenção nas laterais das pernas, coxas, calcanhares e outros pontos que ficam em contato prolongado com superfícies ou equipamentos.

Já tive escara na lateral da perna direita e na parte interna da perna esquerda também. Uma delas chegou a precisar de debridamento numa UPA, procedimento realizado por profissional de saúde para remover tecido desvitalizado da ferida.

Por isso, prevenção não é olhar apenas para onde já existe uma lesão. A inspeção regular da pele ajuda a perceber alterações mais cedo, principalmente em quem tem sensibilidade reduzida.

Cuidado diário com o curativo

Materiais usados no cuidado diário de lesões por pressão

No meu caso, faço a troca do curativo uma vez por dia, de acordo com a rotina que sigo para minhas feridas.

Quando consigo pegar no posto de saúde, uso alginato no curativo. Esse tipo de material é bastante absorvente e pode ajudar no controle da secreção de determinadas feridas.

Uma revisão da Cochrane explica que os curativos de alginato têm alta capacidade de absorção do exsudato, mas também concluiu que as evidências disponíveis não permitem afirmar que eles cicatrizem lesões por pressão melhor do que outros tipos de curativo.

Por isso, não considero o alginato um produto “melhor” para qualquer ferida. É simplesmente um material que faz parte dos cuidados que utilizo no meu caso quando está disponível.

Quando não consigo o alginato no posto, sigo os cuidados que foram orientados para minha situação.

O tipo de curativo, a frequência de troca e os produtos usados precisam levar em consideração características da ferida como profundidade, quantidade de secreção, tecidos presentes e condição da pele ao redor. Feridas mais profundas ou que apresentam alterações importantes devem ser avaliadas por um profissional de saúde.

Como eu observo se a escara está mudando

Ao longo desses anos aprendi a perceber mudanças na aparência, secreção e cheiro das minhas próprias feridas. Mas uma coisa importante é não transformar apenas a cor em diagnóstico.

Uma área avermelhada, amarelada, esbranquiçada ou escura pode ter significados diferentes dependendo do tipo e da profundidade da lesão, dos tecidos presentes e de outros sinais.

No meu dia a dia, observo principalmente se existe uma mudança em relação ao aspecto habitual: aumento da ferida, alteração da secreção, cheiro diferente, mudança na pele ao redor ou outros sintomas.

No meu caso específico, já tive situação em que uma lesão infectada veio acompanhada de febre. Mas isso é algo que aconteceu comigo e não significa que toda infecção em outra pessoa vá provocar febre.

Por isso, diante de piora da ferida ou suspeita de infecção, considero mais seguro procurar avaliação profissional do que tentar determinar sozinho o que está acontecendo apenas pela aparência.

Resumo da minha rotina

  • Uso espuma perfilada tipo caixa de ovo D33 porque foi a que melhor funcionou no meu caso.
  • Compro uma peça maior e corto no tamanho do assento para reduzir o custo.
  • Registro as lesões com fotos para comparar a evolução ao longo do tempo.
  • Faço alívios de pressão durante o período em que fico sentado.
  • Quando estou deitado, procuro mudar de posição conforme consigo e com ajuda.
  • Examino também pernas, coxas, calcanhares e outros pontos de pressão.
  • Faço os curativos de acordo com a rotina estabelecida para minhas feridas.
  • Uso alginato quando disponível e adequado para o meu caso, sem tratá-lo como solução universal.
  • Não considero somente a cor da lesão para decidir se está cicatrizando ou infectada.
  • Mudanças importantes na ferida ou suspeita de infecção precisam de avaliação profissional.

Depois de mais de duas décadas convivendo com tetraplegia, uma das coisas que mais aprendi é que prevenir lesão por pressão não depende de um único colchão, espuma ou curativo. No meu caso, é a combinação de superfície adequada, alívio de pressão, observação da pele e cuidado diário que faz diferença.

Se você também usa cadeira de rodas e encontrou uma rotina diferente que funciona no seu caso, pode compartilhar sua experiência nos comentários. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra, mas trocar experiências ajuda a conhecer alternativas e fazer perguntas melhores aos profissionais que nos acompanham.

Leia também: Transferência de cama para cadeira

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2 comentários em “Como eu previno escaras na prática (depois de 23 anos testando o que funciona)”

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