Ilustração sobre osteoporose na tetraplegia com foco no quadril, joelho e perda de massa óssea

Osteoporose na tetraplegia: minha experiência

Eu descobri a osteoporose na tetraplegia quase por acaso. Depois de quase 23 anos vivendo com uma lesão medular cervical, fiz em 2026 a primeira densitometria óssea da minha vida no Hospital SARAH, em Belo Horizonte. Até então, nenhum médico tinha conversado comigo sobre perda de massa óssea ou osteoporose.

Eu já imaginava que tantos anos sem caminhar e sem colocar peso nas pernas poderiam enfraquecer meus ossos, mas isso era apenas uma suposição minha. Eu não tinha sintomas que me fizessem pensar em osteoporose. O diagnóstico apareceu no exame.

Importante: este texto conta a minha experiência pessoal. Os exames, medicamentos e doses citados aqui fazem parte do tratamento que foi prescrito para mim. Não use meu tratamento como orientação para se medicar. Osteoporose, vitamina D e risco de fratura precisam ser avaliados individualmente por um profissional de saúde.

Como descobri a osteoporose

A densitometria foi realizada em 26 de junho de 2026. Eu nem sabia direito para que servia esse exame. Quando vi a palavra “densitometria” entre os exames do portal, era algo completamente novo para mim.

Não sei exatamente por que a médica solicitou o exame. Não havia uma dor nova, uma fratura recente ou outro sintoma específico que tivesse levado ao pedido. Minha impressão é que pode ter relação com o longo tempo de lesão medular, mas isso não foi explicado para mim, então não quero apresentar essa suposição como fato.

O que eu sei é que essa foi a primeira densitometria que fiz desde o acidente de 2003. Depois, no acompanhamento do Hospital SARAH, o resultado foi tratado como osteoporose e recebi a proposta de iniciar tratamento.

O que apareceu na minha densitometria

O laudo concluiu que os valores encontrados eram compatíveis com osteoporose. Uma coisa que chamou minha atenção foi a diferença entre a coluna e os membros inferiores.

Região avaliadaT-score do meu exame
Coluna lombar L1-L4-0,5
Fêmur esquerdo — total-2,9
Colo do fêmur esquerdo-4,1
Joelho — epífise femoral distal-4,2
Joelho — metáfise femoral distal-3,8
Joelho — epífise tibial proximal-2,5

Esses números são do meu laudo. Não devem ser usados para alguém comparar um resultado isolado e chegar sozinho a um diagnóstico. A interpretação depende do local medido, da idade, do sexo, da base de referência utilizada e do contexto clínico.

Hoje eu entendo melhor por que o exame do joelho foi importante. A International Society for Clinical Densitometry (ISCD) (em inglês) recomenda que adultos com lesão medular permanente sejam avaliados também no quadril, fêmur distal e tíbia proximal. Esses locais são especialmente relevantes porque a perda óssea após lesão medular não acontece da mesma forma em todo o esqueleto.

No meu caso, a osteoporose foi silenciosa

Antes da densitometria eu não percebi nenhuma mudança que hoje consiga apontar e dizer: “isso era osteoporose”. Para mim, ela foi completamente silenciosa.

Eu sinto dores, fisgadas, formigamentos nas mãos e nos pés e uma dor que pode aumentar quando minha bexiga está cheia, mas isso já fazia parte do meu quadro de dor neuropática. Essas dores não começaram junto com a descoberta da osteoporose.

Isso combina com uma característica conhecida da doença: a osteoporose muitas vezes evolui sem sintomas perceptíveis até que uma fratura aconteça. No meu caso, o exame mostrou o problema antes de uma nova fratura.

As fraturas que tive depois da lesão medular

Depois do acidente, as únicas fraturas de que me lembro foram em dois dedos da mão direita: o mindinho e o dedo ao lado dele. Isso aconteceu nos primeiros meses depois da lesão, quando meu irmão fazia exercícios em mim em casa e nós ainda não tínhamos conhecimento nem orientação adequada sobre fisioterapia.

Eu não sei se naquela época eu já tinha alguma perda importante de massa óssea e não considero correto atribuir aquelas fraturas à osteoporose de hoje. Foi um episódio muito antigo, poucos meses depois do acidente.

Inclusive, já contei em outro artigo alguns dos problemas que aconteceram quando pessoas tentavam me movimentar sem experiência. Esse episódio está no texto sobre erros no cuidado de pessoas com lesão medular.

Como foi fazer a densitometria sendo tetraplégico

Fazer o exame não foi doloroso, mas o posicionamento deu trabalho. Precisei ser transferido da cadeira de rodas para a maca do aparelho. A máquina me lembrou visualmente uma máquina de tomografia, embora a densitometria seja um exame diferente, feito por DXA.

Foram avaliadas a coluna, o fêmur e a região do joelho. Minha maior dificuldade foi ficar parado. Quando minhas pernas são esticadas, tenho espasmos, e elas podem começar a pular. A pessoa que estava comigo precisou ajudar a segurar e posicionar minhas pernas para que eu permanecesse na posição necessária durante as imagens.

Ilustração de exame de densitometria óssea em pessoa com lesão medular e cadeira de rodas ao lado

Essa dificuldade de posicionamento é uma parte que raramente aparece quando alguém simplesmente diz “faça uma densitometria”. Para quem tem tetraplegia, espasticidade e dependência para transferência, existe toda uma logística por trás de um exame que para outras pessoas pode ser bastante simples.

Osteoporose na tetraplegia e perda de massa óssea

Quando comecei a pesquisar sobre osteoporose na tetraplegia, descobri que a perda óssea depois de uma lesão medular é mais complexa do que eu imaginava. Antes disso, eu associava minha osteoporose principalmente ao fato de não caminhar e não colocar peso sobre as pernas. Eu até pensava no que acontece com astronautas em ambientes sem a mesma carga da gravidade.

A falta de carga mecânica realmente faz parte da explicação, mas hoje sei que a perda óssea depois de uma lesão medular é mais complexa. Revisões médicas descrevem uma combinação de desuso, alterações neurológicas, mudanças no metabolismo ósseo e outros fatores individuais. A perda tende a ser mais intensa nos primeiros anos após a lesão e é especialmente importante nos ossos abaixo do nível neurológico.

Ilustração comparando estrutura óssea preservada e osso com osteoporose

Um guia clínico sobre saúde óssea na lesão medular (em inglês) destaca que as fraturas nessa população ocorrem com frequência ao redor do joelho, principalmente no fêmur distal e na tíbia proximal. Isso ajuda a entender por que olhar apenas para a coluna não conta toda a história.

Outra coisa que eu pensava era que talvez a osteoporose fosse um destino certo para todo lesado medular. A literatura não permite dizer isso. O risco é maior, mas a quantidade de perda óssea varia de uma pessoa para outra e depende de vários fatores.

Vitamina D e minha pouca exposição ao sol

A vitamina D baixa não era novidade para mim. Eu já vinha suplementando havia anos, mas algum tempo antes desses exames parei de comprar e deixei de usar.

Minha exposição ao sol é muito pequena. Saio da cama, vou para o banheiro, tomo banho e volto para a cadeira. Passo grande parte do dia dentro do quarto. Por isso, a vitamina D já era um assunto que aparecia nos meus exames havia bastante tempo.

Ao longo dos anos, também ouvi orientações diferentes sobre qual seria o valor considerado adequado. Isso me deixou confuso. Hoje prefiro não transformar um número isolado em regra para outras pessoas. Diretrizes diferentes podem usar critérios diferentes, principalmente quando se compara uma pessoa saudável com alguém que já tem uma doença óssea diagnosticada.

No meu caso, o médico prescreveu colecalciferol após os exames. A dose e o tempo de uso que aparecem na minha receita são específicos para o meu tratamento e não são uma recomendação para quem está lendo.

O tratamento que foi prescrito para mim

Depois do resultado, o médico perguntou se eu queria tratar a osteoporose. Para mim, a resposta foi sim. Meu receio foi pensar em uma fratura durante uma transferência ou durante um exercício feito com mais força.

O tratamento prescrito para mim incluiu alendronato 70 mg, de uso semanal, e colecalciferol 50.000 UI, também em esquema semanal por um período determinado na receita.

Reforço: estou registrando o que foi receitado para mim. Não compre nem use esses medicamentos com base neste artigo.

No caso do alendronato, a própria receita orienta que eu tome pela manhã, em jejum, permaneça sentado e espere pelo menos 30 minutos antes da primeira refeição e de outros medicamentos. Essas orientações também aparecem nas informações oficiais de uso do alendronato. (em inglês)

Escolhi a quarta-feira para o alendronato. Como dependo de outra pessoa para me ajudar a sentar, já percebi uma dificuldade prática: se a pessoa que normalmente vem nesse dia faltar, preciso ter um plano B com meu pai. Em uma semana isso aconteceu e acabei tomando no dia seguinte.

Enquanto espero os 30 minutos, aproveito para fazer outras coisas da minha rotina, como a massagem abdominal que aprendi no SARAH e a higiene bucal. Até agora, não senti queimação, dor no estômago ou outro desconforto que eu consiga relacionar ao medicamento.

O colecalciferol ficou para o sábado. Minha mãe também tem suplementação prescrita para esse dia e um acaba lembrando o outro. Eu ainda uso a Alexa para criar lembretes — uma das várias automações que adaptei em casa para conseguir fazer mais coisas com comandos de voz.

Meu cuidado com exercícios e transferências depois do diagnóstico

Depois do diagnóstico, eu fiquei mais apreensivo. Ainda não mudei completamente minha rotina, mas passei a prestar mais atenção na forma como meus braços e pernas são movimentados.

Para ir da cadeira para a cama eu uso um guincho de teto, o que reduz bastante a necessidade de alguém me levantar no braço. Mesmo assim, se o suspensório não estiver bem posicionado nas costas, ele pode subir e puxar meus braços. Quando sinto que começa a doer, peço para parar e reposicionar.

Também recebo ajuda para fazer movimentos nos braços e pernas a cada poucos dias. A pessoa que me ajuda às vezes coloca mais força principalmente nos braços e ombros. Antes eu não pensava tanto nisso. Agora quero conversar com ela e deixar claro que tenho osteoporose e que os movimentos precisam ser feitos com cuidado e bom posicionamento.

Isso não significa que eu esteja dizendo que uma pessoa com osteoporose e lesão medular deve parar de fazer exercícios. A própria ISCD informa que não existe um valor único de densidade óssea abaixo do qual toda atividade com carga seja automaticamente proibida. O risco precisa ser avaliado junto com o quadro clínico e com profissionais que conheçam a pessoa.

Hoje entendo que a osteoporose na tetraplegia também merece atenção no acompanhamento de longo prazo da lesão medular.

O que ainda está pendente no meu acompanhamento

Eu ainda estou no começo dessa história. Não sei quando minha densitometria será repetida porque o médico não definiu isso comigo na consulta.

Meu próximo retorno presencial no Ambulatório de Lesão Medular do SARAH está marcado para 4 de março de 2027. Até lá, sigo o tratamento que foi prescrito e pretendo conversar melhor sobre o risco de fraturas, os exercícios e o acompanhamento da saúde óssea.

As posições oficiais da ISCD para lesão medular orientam que, quando a densitometria é usada para acompanhar a resposta ao tratamento, sejam avaliados o quadril total, o fêmur distal e a tíbia proximal, geralmente depois de pelo menos 12 meses de tratamento e depois em intervalos de um a dois anos. Isso é uma referência geral; o momento do meu próximo exame deverá ser definido pela equipe que me acompanha.

O que eu aprendi até agora

Talvez a maior surpresa tenha sido descobrir uma alteração importante sem sentir nada diferente. Depois de quase 23 anos de lesão medular, eu tinha aprendido a observar bexiga, intestino, pele, pressão, espasmos e dor neuropática, mas não estava acompanhando meus ossos com a mesma atenção.

Hoje eu vejo que saúde óssea também precisa entrar na conversa de quem vive muitos anos com lesão medular. Não porque toda pessoa terá exatamente o mesmo problema que eu, mas porque o risco existe e pode passar despercebido.

Se você vive com lesão medular e nunca conversou sobre densidade óssea, minha experiência serve principalmente como um incentivo para levar essa pergunta à sua equipe de saúde. Não espere meu tratamento servir como receita para você. O mais importante é descobrir qual é a sua situação e receber orientação adequada para o seu caso.

Este artigo relata minha experiência pessoal com tetraplegia e osteoporose e traz informações gerais baseadas em fontes médicas. Ele não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento profissional.

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