
Hospital SARAH e lesão medular fazem parte da minha história desde 2004, poucos meses depois do acidente de moto que sofri em 20 de dezembro de 2003. Foi no SARAH que eu e minha família aprendemos boa parte dos cuidados que mudariam a minha vida: cateterismo, manejo do intestino, alimentação, alongamentos, uso de órteses e adaptações para que eu pudesse comer e usar o computador.
Mais de duas décadas depois, continuo enxergando o SARAH como um divisor de águas. Este é o meu relato pessoal sobre a unidade de Belo Horizonte, o período em que fui atendido no Rio de Janeiro e minha volta ao acompanhamento em 2025 e 2026.
Este artigo relata a minha experiência como pessoa com tetraplegia. Cada lesão medular tem características e necessidades diferentes. Meu tratamento e minhas adaptações não devem ser usados como orientação universal nem substituem avaliação profissional.
Como conheci o Hospital SARAH em 2004
Eu soube da existência do SARAH no início de 2004, ainda no Pronto-Socorro João XXIII, em Belo Horizonte. Depois de sair da UTI, passar por uma cirurgia, voltar à UTI e finalmente subir para a enfermaria, uma assistente social falou comigo sobre o hospital. Um amigo conseguiu a folha de admissão.
Recebi alta do João XXIII em fevereiro de 2004, mas não pude ser internado imediatamente no SARAH. Eu estava com uma escara no cóccix e, segundo a orientação que recebi na época, precisava tratar a ferida antes da admissão.
Entre fevereiro e setembro, fui ao SARAH para avaliações, exames de sangue e exames de imagem. Meu caso ainda era novo para a equipe. A escara levou cerca de sete meses para fechar. Só então fui admitido, em setembro de 2004. A previsão inicial era permanecer internado por um mês e quinze dias, mas o período foi reduzido, e recebi alta em outubro, depois de aproximadamente 30 dias.
Quem quiser conhecer melhor o começo da minha trajetória pode ler também My Story.
O suor intenso e a orientação sobre o Retemic
Antes da internação, eu ainda não tomava Retemic, nome comercial da oxibutinina. Eu tinha episódios muito fortes de suor frio. À noite, chegava a molhar duas ou três toalhas e o lençol. Precisava chamar alguém várias vezes para me secar. Também sentia muito frio e procurava ficar exposto ao sol forte durante a tarde para tentar aliviar aquela sensação.
Naquele período eu ainda não tinha uma cadeira de rodas adequada. Permanecia muito tempo sentado numa cadeira de banho e cheguei a desenvolver outra ferida por pressão nas costas.
No SARAH, explicaram que aqueles sintomas tinham relação com o funcionamento da minha bexiga neurogênica e que a oxibutinina ajudaria a deixar a bexiga mais relaxada e capaz de armazenar urina com menos contrações. Quando comecei a tomar o comprimido, a diferença foi enorme. O suor excessivo diminuiu e eu senti um alívio que lembro até hoje.
Continuo usando esse medicamento. No meu caso, ele provoca boca e olhos secos, mas ainda considero o benefício muito importante. Quando deixo de tomá-lo, percebo novamente suor, arrepios, mãos e pés gelados quando a bexiga enche. Essa é a minha resposta ao tratamento, acompanhada por profissionais ao longo dos anos; não é uma indicação para que outra pessoa comece, interrompa ou altere o uso do medicamento.
Hospital SARAH e lesão medular: aprender a viver de novo
Minha lembrança da internação é muito positiva. O hospital parecia um ginásio e nem tinha aquele aspecto de hospital que eu conhecia. A comida era muito boa, e a alimentação era planejada conforme as necessidades calóricas de cada paciente.
O atendimento envolvia uma equipe multidisciplinar. Tive contato com profissionais de medicina, enfermagem, psicologia, serviço social, urologia e sexualidade, entre outras áreas. Como sou tetraplégico, meu irmão também precisava aprender os cuidados que eu não conseguia executar sozinho. Ele ia para casa e voltava pela manhã para participar das atividades comigo.
A equipe ensinou os exercícios e as mobilizações das articulações. Isso era especialmente importante porque, antes do SARAH, dois irmãos meus haviam quebrado dedos das minhas mãos ao tentar fazer exercícios em casa. Meus dedos continuam tortos até hoje, como já relatei no artigo sobre erros de cuidadores com pessoas com lesão medular.
Também recebemos treinamento para o manejo do intestino e para o cateterismo vesical intermitente, sempre de acordo com o meu caso. Entre fevereiro e setembro de 2004, antes desse aprendizado, eu não passava sonda: urinava sem controle do momento e sem saber se a bexiga estava esvaziando completamente. Naqueles primeiros anos, tive infecções urinárias frequentes.
Em outra fase do acompanhamento, o SARAH chegou a prescrever cefalexina de forma profilática, que usei durante alguns anos. Depois, a própria equipe suspendeu o medicamento. Conto com mais detalhes como minha conduta e meu entendimento sobre infecção urinária mudaram no artigo Urinary Tract Infection in Spinal Cord Injured Patients: My Experience.
Clipes, colheres e pinos: pequenas adaptações, grande autonomia
Um dos aprendizados que mais fizeram diferença foi comer sozinho. O SARAH forneceu gratuitamente clipes para as mãos, pinos para digitação e colheres de PVC. Os clipes podem receber diferentes utensílios: para comer, encaixo uma colher; para usar o computador ou o celular, uso um pino com uma ponta de borracha.
As colheres de PVC fornecidas pelo hospital trabalham numa posição fixa. Como eu precisava de outro ângulo, pegamos colheres metálicas comuns em casa e entortamos os cabos com um alicate até encontrar uma posição que funcionasse melhor para mim. O SARAH forneceu a base da adaptação, e minha família fez o ajuste final para a minha necessidade.

Clipes fornecidos pelo SARAH com colheres metálicas ajustadas em casa para o ângulo de que preciso.
Consigo comer, digitar e usar o celular dessa maneira somente quando estou sentado. Quando estou deitado, uso apenas comandos de voz. E é importante reforçar: cada pessoa com tetraplegia tem movimentos e necessidades diferentes. O formato que funciona para mim pode não funcionar para outra pessoa.
Demonstração feita depois do almoço: como utilizo os clipes do SARAH com as colheres adaptadas em casa.

Pino adaptado no clipe para digitar e usar o celular quando estou sentado.
As órteses para mãos, dedos e pernas
Também recebi órteses para usar depois dos alongamentos das mãos. Elas ajudam a manter o punho e os dedos na posição trabalhada durante o exercício. Com o passar do tempo, os velcros ficam sujos e os encaixes se desgastam, por isso precisam de manutenção ou substituição.

Tenho espasmos muito fortes na mão esquerda. Por causa disso, uma haste mais frágil pode dobrar ou quebrar, e minha órtese precisa ser feita com material mais resistente. Eu ainda tenho as órteses das duas mãos.


Órtese da mão esquerda colocada depois do alongamento do punho e dos dedos.
Na época, também recebi órteses para as pernas por causa de uma contratura no joelho, que não estica completamente. Essas eu não tenho nem utilizo mais. Mais uma vez, não apresento minhas órteses como modelo: o material, o formato e a indicação precisam ser definidos conforme cada pessoa.
As aulas práticas e o espaço de anatomia
Os pacientes conheciam diferentes áreas do hospital: ginásio, hidroterapia, cozinha e lavanderia. Havia muita aula prática e teórica. Ensinavam o que era uma escara, mostravam imagens e explicavam os cuidados necessários.
O que mais me marcou foi um espaço educativo que lembro como um museu de anatomia. Havia peças reais do corpo humano utilizadas para estudo: medula, nervos, cérebro, rins e partes da musculatura dos braços e das pernas. Era como entrar no corpo humano para compreender o que ele fazia e o que havia deixado de fazer depois da lesão. Achei aquilo tremendo e muito interessante.
Retornos, cálculos renais e alta do programa
Depois da alta de 2004, meus retornos eram inicialmente a cada seis meses e, mais tarde, anuais. Tenho histórico de cálculos renais desde os primeiros anos da lesão. Não lembro o ano exato, mas fiz no SARAH um procedimento sem corte externo: os instrumentos e uma câmera passaram pela uretra para fragmentar e retirar o cálculo. Como não tenho comigo o nome registrado do procedimento, prefiro não afirmar qual técnica foi utilizada.
Chegou um momento em que meu quadro estava estável e recebi alta. Meu entendimento sempre foi que o objetivo principal do SARAH é reabilitar e que, quando uma pessoa não precisa mais daquele acompanhamento frequente, é necessário abrir espaço para novos pacientes. Em minha internação, conheci pessoas de várias partes do Brasil.
Mais tarde, quando surgiu outro problema, procurei novamente o hospital e fui readmitido. Não lembro com segurança qual foi o motivo daquela readmissão, por isso não vou preencher essa lacuna como se fosse um fato.
Meu atendimento no SARAH do Rio de Janeiro
Mudei-me para Duque de Caxias em 2014 e permaneci no estado do Rio de Janeiro até 2017. Acredito que comecei a ser atendido pelo SARAH do Rio em 2015 e permaneci em acompanhamento por cerca de dois anos.
Fiz exames de imagem e avaliações periódicas. Recebi menos orientações do que na primeira reabilitação em Belo Horizonte, mas considero o atendimento bom nas duas unidades.
A maior dificuldade era o trajeto. Eu precisava pegar três ônibus e gastava aproximadamente três horas para chegar ao hospital e outras três para voltar. Para uma pessoa com tetraplegia, esse deslocamento era muito cansativo.
Essa passagem pelo Rio ampliou minha experiência com o Hospital SARAH e lesão medular, mas também mostrou como a distância pode limitar o acesso mesmo quando o atendimento existe.
De 2019 ao retorno em 2025 e 2026
Voltei para Belo Horizonte em 2017 e retomei o atendimento aqui. Em 2019, devido a dificuldades para dormir, o SARAH realizou uma polissonografia. Não dei continuidade ao tratamento porque comecei a ter dificuldade para encontrar alguém que pudesse sair comigo.
Minha rampa é muito íngreme, e meus pais não têm condições físicas de me acompanhar. Apesar de eu ter irmãos e irmãs, não consigo contar regularmente com eles. Acabo ficando meses dentro de casa. Depois veio a pandemia de 2020, e o afastamento se prolongou.
Em 2025, voltei ao SARAH para substituir ou reparar as órteses e solicitar um relatório médico. Preciso desse documento para buscar judicialmente o fornecimento de materiais como sondas e gazes, que muitas vezes compro com meu próprio dinheiro. Essa medida judicial ainda não foi iniciada.
Durante o atendimento, contei que não estava tendo acompanhamento médico regular e que já havia passado até 13 dias sem evacuar. A médica considerou que aquilo precisava ser investigado e decidiu me readmitir para acompanhamento.
Em 2026, realizei três exames no mesmo dia, acompanhado por minha cunhada e por Paulo, um amigo que também me ajuda em casa. Na consulta de 25 de agosto, fui atendido pelo Dr. Rafael, que deu continuidade à avaliação e me encaminhou para acompanhamento urológico fora do SARAH.
Meu próximo retorno no SARAH está marcado para 10 de setembro de 2026, às 9h, por videoconferência. Portanto, os exames recentes, o funcionamento do intestino e as questões urológicas ainda estão em acompanhamento. Não seria correto apresentar conclusões ou diagnósticos antes dessa avaliação.
O que o Hospital SARAH representa para mim
O SARAH representa tudo de bom para mim. Foi lá que aprendi a me adaptar à tetraplegia: banho, alimentação, dieta, intestino, bexiga, exercícios, órteses e formas de conquistar alguma autonomia. Aprendi também a encarar a vida de maneira mais positiva.
Na alimentação, por exemplo, a equipe insistia bastante nos alimentos integrais. Na minha experiência, eles aumentavam a saciedade e ajudavam a evitar que eu comesse toda hora. Quando sofri o acidente, pesava aproximadamente entre 55 e 60 quilos. Hoje estou com 68,9 quilos, com maior acúmulo de gordura na barriga.
Isso não significa que tudo seja fácil. A grande procura limita o tempo de acompanhamento, alguns especialistas precisam ser buscados fora da instituição e o deslocamento continua sendo uma barreira enorme para mim. Para chegar a uma consulta, dependo da disponibilidade e da boa vontade de outras pessoas.
Mesmo assim, quando olho para tudo o que vivi desde 2004, não tenho dúvida: o Hospital SARAH foi um divisor de águas na minha vida.
Minha história com o Hospital SARAH e lesão medular continua em 2026. Depois do próximo retorno, poderei atualizar este relato com o que for realmente explicado pela equipe, sem antecipar conclusões.
Como solicitar atendimento na Rede SARAH
Segundo o site oficial, os atendimentos da Rede SARAH são gratuitos e começam por uma consulta médica previamente agendada. A solicitação da primeira consulta é feita pela internet, escolhendo a unidade e a especialidade. O pedido passa por avaliação de uma equipe, e o andamento pode ser acompanhado com o número de protocolo.
Solicitação oficial de primeira consulta: www.sarah.br/solicitacao-de-atendimento/
Lista oficial de unidades e especialidades: www.sarah.br/unidades/
O SARAH é especializado em reabilitação e não funciona como pronto-socorro: não atende emergências nem urgências. Em uma situação urgente, é necessário procurar um serviço apropriado.
Unidades, telefones e endereços
Informações consultadas no site oficial da Rede SARAH em agosto de 2026. Confirme os dados antes de viajar.
| Unidade | Telefone | Endereço |
|---|---|---|
| Brasília Centro | (61) 3319-1111 | SMHS 501, Bloco A, Brasília–DF, CEP 70335-901 |
| Brasília – Lago Norte | (61) 3319-1111 | SHIN QL 13, Área Especial C, Lago Norte, Brasília–DF, CEP 71535-005 |
| São Luís | (98) 3216-5353 | Av. Luís Rocha, s/n, Monte Castelo, São Luís–MA, CEP 65035-270 |
| Salvador | (71) 3206-3333 | Av. Tancredo Neves, 2782, Caminho das Árvores, Salvador–BA, CEP 41820-900 |
| Belo Horizonte | (31) 3379-2600 | Av. Amazonas, 5953, Gameleira, Belo Horizonte–MG, CEP 30510-000 |
| Fortaleza | (85) 3499-4999 | Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 4500, Passaré, Fortaleza–CE, CEP 60861-634 |
| Macapá | (96) 3312-7000 | Rodovia Josmar Chaves Pinto, 2011, Universidade, Macapá–AP, CEP 68903-419 |
| Belém | (91) 3205-6700 | Rodovia Arthur Bernardes, 1000, Val de Cans, Belém–PA, CEP 66115-000 |
| Rio de Janeiro | (21) 3543-7000 | Av. Embaixador Abelardo Bueno, 1500, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro–RJ, CEP 22775-023 |
Nem todas as unidades oferecem os mesmos programas ou atendem todas as faixas etárias. A unidade do Rio de Janeiro, por exemplo, realiza atendimentos exclusivamente ambulatoriais. Antes de solicitar uma consulta, consulte no site oficial a especialidade e o perfil de atendimento da unidade escolhida.
As informações institucionais e os contatos foram verificados no site oficial da Rede SARAH em agosto de 2026. Minha experiência pessoal não representa garantia de admissão, prazo, tratamento ou resultado para outros pacientes.




