Copo de água e rotina de cuidados representando prevenção de infecção urinária em lesado medular

Urinary Tract Infection in Spinal Cord Injured Patients: My Experience

Eu já sabia, teoricamente, como reconhecer uma infecção urinária em lesado medular. Na prática, levei dez dias ignorando os sinais até quase morrer de sepse. Essa é a história de como uma infecção urinária evoluiu no meu caso — e do que eu mudei depois disso. A sepse é uma resposta extrema do organismo a uma infecção e constitui uma emergência médica.

Important notice: este artigo relata minha experiência pessoal com lesão medular e infecções urinárias. Os sintomas e o manejo da bexiga podem variar de pessoa para pessoa. Bactéria na urina, febre ou qualquer outro sinal isolado não devem ser usados por conta própria para decidir iniciar, interromper ou recusar antibióticos. Em caso de sintomas novos ou piora do estado geral, é importante procurar avaliação profissional.

Higienização das mãos antes do cateterismo intermitente

Os primeiros sinais que eu ignorei

Começou pequeno: pouca urina, mesmo bebendo mais água que o normal. A urina ficou turva e com um cheiro que eu sabia que não era o de sempre. Depois veio a febre.

Eu tinha esse hábito — já vinha de infecções recorrentes desde o acidente, então febre para mim acabou virando quase rotina: tomava dipirona, passava um ou dois dias e tentava beber bastante água. Às vezes os sintomas melhoravam temporariamente. Dessa vez, não melhoraram.

O que me fez demorar tanto para procurar ajuda não foi falta de informação — foi o oposto. Eu já tinha sido internado tantas vezes por infecção urinária que havia recebido no Hospital Sarah Kubitschek, referência em reabilitação de pessoas com lesão medular, uma orientação que marcou muito minha forma de pensar: encontrar bactéria na urina de uma pessoa com lesão medular não significa, sozinho, que exista uma infecção que precise de antibiótico.

Hoje sei que existe uma diferença importante entre bacteriúria assintomática e infecção urinária sintomática. Bacteriúria assintomática é a presença de bactérias na urina sem sinais ou sintomas atribuíveis a uma infecção urinária. Ela é frequente em pessoas com lesão medular e alterações no funcionamento da bexiga, principalmente em quem utiliza cateteres.

Diretrizes da Infectious Diseases Society of America (IDSA) recomendam que pessoas com lesão medular não sejam rotineiramente rastreadas ou tratadas com antibióticos apenas por apresentarem bacteriúria assintomática. O tratamento desnecessário pode favorecer resistência bacteriana. A fonte está em inglês, mas o navegador pode traduzir a página.

Na época, eu tinha resumido a orientação recebida de um jeito muito simples: só usaria antibiótico quando tivesse febre junto com exame de urina positivo para bactéria.

Hoje eu não trataria isso como uma regra universal. Pessoas com lesão medular podem apresentar uma infecção urinária de maneira diferente e nem sempre terão febre.

Eu sabia bem da preocupação com o uso excessivo de antibióticos. Só que, na prática, muitas vezes eu ia a um posto de saúde ou UPA, fazia o exame, aparecia bactéria e já vinha uma prescrição de antibiótico.

Depois de tantos ciclos assim, fui ficando resistente à ideia de procurar atendimento por qualquer sinal e acabei decidindo, meio por conta própria, que não iria mais correr atrás de hospital com tanta facilidade — um raciocínio parecido com outros erros que cuidadores e o próprio sistema de saúde cometem no cuidado com pessoas com lesão medular.

No meu caso, essa decisão acabou contribuindo para eu esperar demais.

Dez dias tentando resolver sozinho

Foram cerca de dez dias nesse ritmo: febre, dipirona, água, alívio temporário, febre de novo.

Perto do fim desse período, aconteceu algo que realmente me assustou: a água que eu bebia praticamente não estava saindo como urina.

Tentei água de coco — nada.

Passei a sonda de alívio — não saiu urina nenhuma.

Foi aí que percebi que não dava mais para continuar tentando resolver sozinho.

Fui até uma clínica perto de casa. O médico fez os exames, tentou passar a sonda, viu que não saía urina e foi direto:

“Aqui eu não tenho recurso para te atender, mas não volte para casa nesse estado. Vá para um hospital.”

Fui para um hospital com mais estrutura achando que ficaria internado alguns dias. Não imaginava o tamanho do problema.

A internação que quase me custou a vida

A médica de plantão foi direta: eu ficaria internado, e ela já tinha pedido minha vaga no CTI.

Aquilo me assustou.

Eu estava conversando normalmente e, apesar de não conseguir urinar, achava que estava relativamente bem.

Nas primeiras horas em observação, tive febre novamente e pedi uma dipirona, como costumava fazer.

Foi aí que tudo mudou.

No momento em que aplicaram o medicamento, tive uma crise: falta de ar e um desespero que eu não sabia explicar. Fui informado de que havia apresentado uma reação alérgica à dipirona.

Desde aquela internação, nunca mais tomei dipirona — nem oral, nem injetável — e nunca mais tive esse tipo de reação.

Depois disso, minha internação no CTI foi agilizada.

Segundo o que os médicos me explicaram na época, a infecção havia chegado à corrente sanguínea. Também tive um comprometimento renal que, de acordo com o que me foi informado, fez meu rim direito perder parte da capacidade de filtragem.

Minha pressão chegou a 7 por 4.

Hoje entendo melhor a gravidade daquela situação. A sepse é uma resposta extrema do organismo a uma infecção e constitui uma emergência médica. Infecções que começam no trato urinário estão entre aquelas que podem desencadear sepse.

Trinta dias de sofrimento

Fiquei dois dias no CTI e depois mais trinta dias internado na enfermaria.

Sem a dipirona que eu sempre havia usado, recebi outros medicamentos para controle da febre e da dor.

A febre chegava a voltar três vezes por dia, sempre acompanhada de calafrios fortes. Naqueles dias, eu também acabava tomando banhos frios quando ela vinha.

Foram, sem exagero, alguns dos dias mais difíceis que já vivi — inclusive comparados à fase logo depois do acidente, em 2003.

Cheguei a pensar que ia morrer e, sinceramente, em alguns momentos, cheguei a pedir a Deus que aquilo acabasse de um jeito ou de outro.

Os médicos precisaram trocar o antibiótico durante a internação até conseguirem controlar a infecção.

Minha mãe ficou comigo boa parte daquele período. Meu irmão, que tinha ficado comigo em internações anteriores, já não estava mais vivo naquela época.

Depois que recebi alta, ainda voltei ao mesmo hospital meses mais tarde para tratar cálculos renais que tinham se formado. No meu caso, as pedras foram fragmentadas e retiradas por procedimento urológico, sem necessidade de cirurgia aberta.

O que mudou depois de 2010

Da alta em 2010 até 2025 — aproximadamente quinze anos — não tive outra infecção urinária diagnosticada.

Algumas coisas mudaram na minha rotina nesse período.

Passei a beber água com mais regularidade ao longo do dia.

Também passei a consumir frutas cítricas com frequência, principalmente limão e abacaxi. Isso faz parte do que eu mudei na minha alimentação, mas não tenho como afirmar que essas frutas tenham sido responsáveis por evitar infecções ou que “enfraqueçam” as bactérias.

Outra mudança importante foi a frequência da minha sondagem.

Principalmente no verão, passei a fazer o cateterismo com mais frequência. Em determinados períodos da minha rotina, chegava a ser de duas em duas horas. Em outros, ficava em intervalos de quatro ou até seis horas.

Esses intervalos descrevem a minha rotina pessoal e não são uma recomendação para outras pessoas.

Diretrizes de neuro-urologia destacam que frequência de cateterismo, ingestão de líquidos, capacidade da bexiga, volumes drenados e outras características precisam ser consideradas individualmente. Em termos gerais, o cateterismo intermitente costuma ser realizado várias vezes ao dia, mas o esquema adequado depende de cada caso.

Também passei a ter muito mais cuidado com antibióticos.

Durante muitos anos, quando recebia uma prescrição que eu entendia como “preventiva” apenas porque havia bactéria na urina e eu não apresentava os sintomas que costumava ter, eu recusava.

Essa foi uma decisão pessoal, influenciada pela orientação que eu havia recebido anteriormente e pelo meu histórico de tratamentos repetidos.

Hoje faço questão de deixar uma coisa clara:

não recomendo que outra pessoa recuse, interrompa ou modifique um antibiótico prescrito por conta própria.

O ponto importante é que bacteriúria assintomática e infecção urinária sintomática não são a mesma coisa. A necessidade ou não de antibiótico deve ser avaliada dentro do contexto clínico de cada pessoa.

Uma recaída sem febre, em 2025

Em setembro ou outubro de 2025, depois de aproximadamente quinze anos sem uma nova infecção urinária diagnosticada, tive um episódio completamente diferente dos anteriores.

Não tive febre.

O que chamou atenção, dessa vez, foi uma alteração no meu estado mental.

Fiquei convencido de que precisava ir trabalhar, tive pensamentos desconexos e cheguei a enxergar as paredes com uma tonalidade avermelhada.

Como durante muitos anos eu havia associado minhas infecções à febre, não imaginei inicialmente que pudesse estar com uma infecção urinária.

Fui ao hospital para investigar.

Durante a avaliação, também perceberam que minha barriga estava muito inchada, dura e cheia de gases.

Aquilo aconteceu junto com o episódio, mas hoje eu não considero a barriga inchada um “sinal claro de infecção urinária”. Distensão abdominal e gases podem ter diversas causas e precisam ser avaliados dentro do conjunto do quadro.

Depois da investigação hospitalar, fui diagnosticado e tratado por uma infecção urinária.

Passei uma noite internado e, na manhã seguinte, recebi alta com receita para continuar o tratamento em casa. Consegui o medicamento no posto de saúde e não precisei de outra internação longa.

Foi um alerta importante para mim: infecção urinária em lesado medular nem sempre vem acompanhada de febre.

Diretrizes médicas alertam que pessoas com lesão medular podem apresentar sinais diferentes dos sintomas urinários considerados clássicos. Febre, mal-estar, urina turva ou com odor diferente, alterações na continência, aumento da espasticidade, desconforto e episódios de disreflexia autonômica estão entre as manifestações que podem entrar na avaliação.

No meu episódio de 2025, a confusão mental foi a alteração que mais chamou atenção.

Mas também é importante deixar claro que confusão mental isoladamente não diagnostica infecção urinária.

Confusão ou desorientação podem ocorrer em várias condições diferentes e também estão entre os sinais possíveis de infecções graves e sepse. Uma mudança aguda no estado mental merece avaliação para descobrir a causa, em vez de simplesmente presumir que se trata de uma infecção urinária.

Como eu previno infecção urinária hoje

Hoje meu pai faz minha sondagem, seguindo a técnica de cateterismo intermitente limpo que foi ensinada para o meu caso.

Antes de manusear o material, ele higieniza as mãos. Na minha rotina, ele lava as mãos ou utiliza álcool em gel 70%.

Cada sonda de alívio que usamos é descartada depois do uso, e a urina é desprezada logo em seguida, comigo sentado ou deitado.

A higiene das mãos antes do cateterismo faz parte dos cuidados importantes para reduzir contaminação. Já detalhes como tipo e calibre da sonda, técnica e frequência do cateterismo precisam ser definidos de acordo com a situação de cada pessoa e com a orientação recebida.

É uma rotina simples de descrever, mas que exige disciplina todos os dias — a mesma disciplina que também aplico na prevenção de escaras, outro cuidado diário que não pode ficar de lado.

Materiais que uso na minha rotina

Os dois materiais que fazem parte diretamente da minha rotina são:

Esses são os produtos que utilizo no meu caso. O tipo de material e, principalmente, o tipo e calibre da sonda adequados para outra pessoa devem seguir orientação profissional.

Sonda de alívio e itens de higiene usados na rotina de cateterismo

Se você vive com lesão medular ou cuida de alguém nessa condição, o principal aprendizado que tirei da minha experiência é que bactéria na urina e infecção urinária sintomática não são a mesma coisa.

Ao mesmo tempo, também aprendi da pior maneira que não é seguro depender somente da febre para decidir se existe ou não uma infecção.

Mudanças novas no padrão urinário, febre, calafrios, mal-estar, alterações da espasticidade, disreflexia autonômica ou uma piora inexplicada do estado geral merecem atenção e precisam ser avaliadas dentro do contexto de cada pessoa.

E se uma infecção vier acompanhada de confusão ou desorientação, falta de ar, pressão muito baixa ou piora importante do estado geral, é preciso considerar a possibilidade de uma emergência, como sepse, e procurar atendimento rapidamente.

Minha experiência de 2010 me ensinou duas coisas que parecem contraditórias, mas não são: antibiótico não deve ser usado sem necessidade, mas uma infecção de verdade também não deve ser subestimada.

Encontrar esse equilíbrio foi uma das coisas que precisei aprender vivendo com uma lesão medular.

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