Faz quase 23 anos. No dia 20 de dezembro de 2026 vou completar 23 anos de uma nova vida — a vida que começou no exato momento em que a antiga terminou, numa manhã de sábado, 20 de dezembro de 2003.
Um dia comum, quase até o fim
Na segunda saída do dia, eu ia buscar peças para uma loja de autopeças. Era o mesmo trajeto de horas antes. Eu estava tranquilo, trabalhando numa boa, sem imaginar que aquele percurso — que eu já tinha feito naquela manhã — seria o último como eu conhecia minha vida até ali.
Fui fechado por uma pickup Ranger preta. A moto bateu na roda dianteira do carro, e eu fui arremessado por cima do capô, caindo do outro lado. O primeiro contato com o chão foi o meu pescoço, protegido pelo capacete. Foi esse capacete — novo, na época — que me livrou de um traumatismo craniano. Mas não livrou o que vinha por trás dele: a força do impacto fraturou minha quinta vértebra cervical e lesionou a medula na altura da quarta vértebra.
Foi ali, naquele instante, que a minha vida virou de vez — e eu nem sabia.
O que eu lembro (e o que a amnésia apagou)
A pancada foi tão forte que tive amnésia. Não lembrava de nada: nem o que estava fazendo, nem para onde estava indo. Só sei que caí, meio de bruços, meio de lado, e que já caí paralisado. Conseguia ver uma das minhas mãos parada ali, na minha frente, e não conseguia mexer um dedo sequer.
Tem coisas que voltaram depois, em pedaços. Lembro de uma sombra sobre mim — só entendi depois que era um senhor com seu guarda-chuva que me cobria fazendo sombra, porque era quase meio-dia, o sol estava forte e o asfalto certamente escaldando. Pedi para que ele tirasse meu capacete. Disse que não podia, mas ele já tinha soltado a fivela, que talvez estivesse me sufocando. O capacete ficou ali na altura dos olhos, tampando quase tudo — eu só via os pés das pessoas ao redor.
Ele disse que o resgate já tinha sido chamado. E eu apaguei.
Quando voltei a acordar, comecei a orar. Em voz alta, falando com Deus ali mesmo, no chão. Ouvia as pessoas comentando ao redor — “ele está orando”, “ele está falando com Deus” — mesmo sem conseguir ver ninguém, só os pés passando perto de mim através da fresta do capacete.
Apaguei de novo. Acordei dentro da ambulância, via as enfermeiras me olhando. Apaguei mais uma vez. Quando abri os olhos de novo, já estava no pronto-socorro. Dali em diante, fiquei acordado — e lúcido — até hoje. Nunca mais tive qualquer problema de consciência ou memória por causa do acidente.
A ficha caindo aos poucos
Só depois, aos poucos, fui entendendo a dimensão do que tinha acontecido. Naquele primeiro momento eu ainda não sabia da dificuldade que vinha pela frente — só sabia que meu corpo não respondia como antes.
Fiquei 55 dias internado. A quinta vértebra cervical praticamente se esfacelou com o impacto. O nível da lesão medular foi em C4 — e quanto mais alta a lesão na coluna, maiores as sequelas. No meu caso, a sensibilidade desaparece a partir dos mamilos para baixo. Nos braços, ela só começa a partir dos ombros, e mesmo assim de um jeito gradual: primeiro vem dormente, depois vai virando sensação de fato.
Hoje sou tetraplégico — mas não sem nenhum movimento, como muita gente imagina quando ouve essa palavra. Tenho algum movimento nos braços, só que sem força. Minhas mãos e meus dedos não fazem pinça: não consigo segurar objetos pequenos entre os dedos como antes.
A cirurgia e o começo de tudo que viria depois
Fiquei do dia 20 ao dia 30 de dezembro esperando meu pescoço desinchar, para então operar. A cirurgia costuma ser feita por trás do pescoço — a minha não. Fizeram um corte na frente, do lado do pomo de adão, e ali colocaram uma haste, parafusada na quarta vértebra (que tinha sido afetada a nível medular, mas não chegado a quebrar) e fixada também na sexta. Tiraram um pedaço de osso da minha cintura para reconstruir a quinta vértebra — um enxerto ósseo natural, para evitar rejeição, no lugar de com um material sintético que foi usado no local.
Foi dali que vieram os primeiros grandes desafios que teriam mudado tudo que veio depois: as infecções urinárias. Uma pessoa com lesão medular como a minha precisa de uma sonda permanente (que é o pior para quem tem lesão na medula) a uma sondagem no máximo a cada seis horas (cateterismo, sonda de alívio) — depois disso, a urina retida vira ambiente perfeito para a proliferação de bactérias, que se multiplicam ali dentro. O hospital, simplesmente, não estava preparado para atender um lesado medular. Não colocaram uma sonda de demora adequada para esvaziar a bexiga como deveria, nem passava a sonda de alívio — e as infecções vieram.
Fiquei todo esse tempo com um colar cervical, sempre deitado de barriga para cima, sem poder ser virado ou mexido, porque meu pescoço estava quebrado. O colar doía muito, só de precisar ficar naquela posição. No colocar a cervical, a enfermeira colocou o colar errado, e ele ficou afundando na parte de trás da minha cabeça. Eu não sabia que aquilo não era normal — só sabia que doía, e foi doendo, doendo, até eu começar a chorar. Uma outra enfermeira percebeu o erro e trocou. Mas até lá, foi muito sofrimento.
Sofrimento que, infelizmente, não foi só meu. É o retrato de uma rede de saúde brasileira despreparada para lidar com lesados medulares — algo que eu convivo há 23 anos, inclusive hoje em dia, em postos de saúde.
O que vem depois
Esse é o resumo do meu acidente. Tem muito mais para contar — sobre a recuperação, sobre reaprender a viver, sobre os erros e acertos do sistema de saúde, sobre a vida prática de quem é tetraplégico há quase 23 anos. Vou deixar cada um desses temas para os próximos textos aqui do site, na esperança de que ajudem outras pessoas lesadas medulares e suas famílias a passar por tudo isso com menos solidão e mais informação do que eu tive…