Antes de qualquer coisa, um número: mais de R$ 100 mil. Foi essa a cotação que recebi anos atrás, quando pesquisei um sistema de guincho de teto pronto, daqueles que percorrem a casa inteira — do quarto até o banheiro, passando por cima de cada porta.
Bonito, prático e completamente fora de alcance para a minha realidade.
Foi por isso que resolvi construir, com a ajuda do meu primo Ney, o meu próprio guincho de teto artesanal para cadeirante.
Aviso de segurança: este artigo mostra como o meu guincho foi construído e como funciona na minha casa. Não é um projeto de engenharia nem um guia de dimensionamento. Equipamentos que suspendem uma pessoa envolvem risco de queda e lesão. Estrutura, carga, pontos de fixação, soldas, componentes e características do imóvel precisam ser avaliados para cada instalação por profissional qualificado.
Sou tetraplégico desde 2003, nível C4. Preciso de ajuda 24 horas por dia e, por muito tempo, essa ajuda significou duas pessoas me erguendo manualmente — uma segurando por baixo dos braços, outra pelas pernas.
Durante anos foi assim, mas o esforço físico sobre quem me ajudava era muito grande. Uma pessoa que fazia minhas transferências sozinha por bastante tempo desenvolveu hérnia de disco e alterações na cervical conhecidas popularmente como “bico de papagaio”.
De forma geral, transferências e reposicionamentos manuais repetidos podem aumentar o risco de lesões musculoesqueléticas em quem cuida. A OSHA inclui transferências entre cama e cadeira entre as atividades de maior risco nesse tipo de manejo.
Fonte em inglês; o navegador pode traduzir a página.
Foi um vídeo no Facebook que mudou minha cabeça. Nele, um senhor estava sendo transferido com uma estrutura simples, operada com muito menos esforço físico do que aquilo que fazíamos comigo.
Ver aquele sistema me deu a ideia de que talvez existisse uma alternativa ao levantamento manual.
Chamei meu primo Ney, que sabe fazer de tudo, e minha cunhada Rosa, que é costureira. Ela também gosta de desafios. Em 2023, montamos o nosso.
Três anos depois, ele continua fazendo parte da minha rotina, e uma das coisas que mais penso é que gostaria de ter encontrado essa solução antes.
O que usamos no meu guincho de teto artesanal
A estrutura que fizemos é de metalon 50 x 50 mm, com 2,5 mm de espessura.
Essas medidas descrevem exclusivamente a estrutura existente na minha casa. Elas não determinam o que é adequado para outra instalação. Peso da pessoa, vão, tipo de parede, soldas, pontos de apoio, fixação e outros fatores interferem no dimensionamento estrutural.
No meu caso, comprei duas barras de 6 metros. Isso permitiu fazer o trilho e ainda usar parte do material no carrinho onde fica o motor.
Materiais que usei
Alguns dos links abaixo são de afiliado. Eles mostram materiais iguais ou semelhantes aos que usei no meu sistema. Não constituem projeto estrutural nem recomendação de que os mesmos componentes sejam adequados para outra instalação.
Tudo isso — metalon, roldanas, barra redonda e motor — é encontrado em lojas de material para serralheria.
Como meu primo trabalha com esse tipo de serviço, ele fez o corte, a soldagem, a montagem e a fixação da estrutura que usamos.
Para outra casa, considero importante que a estrutura e os pontos de fixação sejam avaliados por profissional qualificado antes de suspender uma pessoa.
Metalon
Material semelhante ao usado na minha instalação:
Metalon 50 x 50 mm

Roldanas
Usei quatro roldanas de nylon no carrinho que se movimenta pelo trilho. Escolhemos nylon porque imaginei que produziria menos ruído do que uma roldana metálica.
Materiais semelhantes aos usados na minha instalação:
Também existe a opção metálica:


Barra redonda
Uma barra redonda fica posicionada sobre a estrutura e serve como pista para as roldanas do carrinho.
Material semelhante ao que usei:

O motor que uso
O motor que instalamos é uma talha elétrica.
No equipamento que comprei, o fabricante informa capacidades diferentes conforme a configuração do cabo. Há modelos anunciados como 100/200 kg, 150/300 kg e outras capacidades.
Eu peso atualmente cerca de 68,9 kg e essa é a configuração que usamos na minha instalação.
Depois de aproximadamente três anos de uso, não percebo deformação visível no metalon que instalamos.
Isso, porém, é apenas uma observação sobre o meu equipamento e a minha estrutura. Não significa que uma determinada espessura de metalon ou uma determinada talha sejam adequadas para outra pessoa ou outra construção.
Guinchos desenvolvidos especificamente para transferência de pessoas possuem requisitos próprios. A norma ISO 10535:2021 trata inclusive de equipamentos móveis e guinchos estacionários fixados em parede, piso ou teto.
Fonte em inglês; o navegador pode traduzir a página.
Material semelhante ao motor usado no meu sistema:

Importante: uma capacidade de carga anunciada em quilogramas não é, sozinha, suficiente para determinar se um equipamento é apropriado para suspender uma pessoa. É preciso considerar o equipamento completo, a estrutura, a instalação, os suportes corporais e a forma de operação.
Quanto gastei
Na época em que construí o meu, gastei menos de R$ 2.000 no total.
O item mais caro foi o material de serralheria.
O motor custou aproximadamente R$ 500 quando comprei. Já encontrei equipamentos semelhantes posteriormente por valores maiores.
Esses preços são apenas referência da minha compra e podem mudar bastante conforme vendedor, região e época.
Como funciona o trilho
O carrinho do guincho — a peça que desliza pelo trilho carregando o motor — roda sobre quatro roldanas de nylon.
Além das roldanas, usamos uma barra redonda soldada na estrutura, por onde elas deslizam.
Na minha casa, a estrutura foi fixada na parede abaixo da viga do teto. Dessa forma, na instalação que fizemos, não perfuramos aquela viga.
Ficou pouco acima do vão da porta: a porta do meu quarto tem 2,10 m de altura, e o guincho está aproximadamente a 2,30 m.
Essas medidas são apenas o registro de como o meu sistema foi instalado. Não devem ser usadas como medidas de referência para outro imóvel.
O cabo de aço do equipamento é bem mais comprido do que preciso na rotina. No uso diário, utilizo apenas o comprimento necessário para subir ou descer da cama e da cadeira.

O trilho fica apenas no meu quarto
Meu sistema não percorre a casa inteira.
Meu primo chegou a sugerir uma estrutura mais complexa, com curva no trilho, o que poderia ampliar a área de movimentação. Preferi manter o projeto que fizemos mais simples e reto.
Quando preciso aliviar a pressão na região dos glúteos, utilizamos outras formas de posicionamento na minha rotina.
A rotina gira bastante em torno do guincho: saio da cadeira de banho, sou transferido para a cama ou para a cadeira de rodas, dependendo do momento — para vestir roupa, fralda ou cueca, passar creme, cortar unha, colocar meia — e depois sou colocado novamente na cadeira.
Os suspensórios que usamos
Essa parte ficou por conta da minha cunhada, Rosa, que é costureira.
O primeiro suspensório foi um protótipo e não funcionou como esperávamos. Fomos fazendo ajustes até chegar ao formato que uso hoje.
No meu caso, chegamos a uma posição em que meus joelhos ficam mais baixos e minhas costas mais elevadas, deixando meu corpo numa posição parecida com uma concha durante a transferência.
Isso descreve o suspensório artesanal feito especificamente para mim. Outros modelos de sling ou suporte corporal têm formato, pontos de conexão e instruções próprios.
No vídeo que me inspirou, o suspensório tinha uma curva fechada em cada ponta.
No meu, usamos mosquetões nos pontos de conexão.
A FDA alerta que o sling, os pontos de conexão, clips e travas são elementos fundamentais na segurança de elevadores de pacientes. Entre as orientações estão treinamento, inspeção do sling e confirmação de que todas as conexões estejam corretamente presas antes da movimentação.
Fonte em inglês; o navegador pode traduzir a página.
Quanto tempo levou para montar o meu
Na minha casa, a parte metálica ficou pronta em uma tarde.
Meu primo mediu, cortou e soldou o material e fez a instalação da estrutura que usamos.
Os suspensórios levaram mais tempo porque o primeiro modelo precisou de ajustes. Foram aproximadamente dois ou três dias até chegar ao formato atual.
Esse foi o tempo do nosso caso, com meu primo fazendo o trabalho e minha cunhada confeccionando o suspensório. Não é previsão de prazo para outra instalação.
Segurança: um incidente que me ensinou muito
Em cerca de três anos de uso, tive um incidente que considero importante contar.
Um cuidador de um serviço social que me atende nos dias de banho não encaixou corretamente um dos mosquetões do suspensório.
Durante a movimentação, ele se soltou.
Meu corpo perdeu parte do apoio e fiquei com a cabeça muito próxima do chão. Se o movimento tivesse continuado mais alguns segundos, eu poderia ter batido a cabeça.
Naquele episódio, não identifiquei uma quebra estrutural no equipamento; o problema observado foi que o mosquetão não estava corretamente encaixado.
Mas o episódio mudou a forma como enxergo a operação do guincho.
Mesmo um equipamento que funciona todos os dias pode se tornar perigoso se uma conexão não estiver correta.
Por isso, no meu sistema, quem opera precisa conferir cuidadosamente cada mosquetão antes de iniciar o içamento.
Equipamentos de transferência também precisam de inspeção periódica de partes desgastadas, suportes e conexões. A FDA recomenda treinamento, verificação de slings, clips e travas e manutenção preventiva para reduzir o risco de quedas durante o uso.
O pano de fundo que não sai da conta
Hoje, quem mais me ajuda é meu pai.
Ele tem 80 anos e teve um infarto em abril de 2026, quando precisou colocar três stents.
Minha mãe também me ajudava, mas sofreu uma queda dentro de casa e fraturou o fêmur. Enquanto se recupera, ela fica no térreo e eu moro no andar de cima.
Quando estou sentado, consigo me comunicar com eles pelo celular. Quando estou deitado, utilizo a Alexa.
Meu pai acabou ficando responsável por muita coisa.
É justamente nesse contexto que o guincho ganhou ainda mais importância para mim: ele reduz a necessidade de alguém levantar manualmente o peso do meu corpo durante várias transferências do dia.
Fotos e vídeos do meu sistema
No vídeo abaixo mostro uma demonstração de Como funciona meu guincho de teto artesanal para cadeirante sendo içado da cama em direção à cadeira.
Uma prévia do equipamento; o objetivo é mostrar como o equipamento se movimenta.
Pretendo registrar mais detalhes, porque, para filmar com segurança, uma pessoa precisa se concentrar na operação e outra na gravação.
Fotos da estrutura



Detalhe das roldanas e do carrinho do guincho de teto artesanal
Valeu a pena para mim?
Para a minha rotina, sim.
O sistema que construímos reduziu muito o esforço físico necessário para minhas transferências e continua sendo usado diariamente.
O custo total que tive na época foi inferior ao de sistemas prontos que eu havia pesquisado, e isso tornou a solução possível na minha realidade.
Mas este artigo não tem a intenção de dizer que alguém deve copiar exatamente a estrutura que fizemos.
Se você está procurando uma solução para uma pessoa cadeirante ou acamada, vale conhecer equipamentos de transferência desenvolvidos para esse uso e conversar com profissionais que possam avaliar a pessoa, o imóvel e a forma de instalação.
No meu caso, essa adaptação mudou bastante a rotina dentro de casa.
Leia também: Transferência de Cama para Cadeira: Minha Experiência
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