Aviso: este texto relata a minha experiência pessoal com glicemia alterada e diabetes depois de quase 23 anos vivendo com tetraplegia. Não sou profissional de saúde. Exames, medicamentos, alimentação e metas precisam ser avaliados individualmente por médicos e outros profissionais que conheçam o caso.
Quando vi uma glicemia de 224 mg/dL depois de 11 horas de jejum, em junho de 2026, fiquei surpreso. Eu já vinha sendo acompanhado como pré-diabético havia cerca de um ano a um ano e meio e já usava metformina prescrita pela médica do posto de saúde. Mesmo assim, ver aquele número no exame foi diferente. O que mais me chamou atenção é que eu não estava sentindo nada.
Esse foi o ponto em que o diabetes após lesão medular deixou de ser apenas uma possibilidade distante para mim e passou a aparecer de forma concreta nos exames e nos documentos médicos.
Índice
- Antes da glicemia de 224
- O exame de junho de 2026
- O que mudou no exame de agosto
- As consultas no SARAH e os medicamentos
- Lesão medular, diabetes e risco cardiometabólico
- Diabetes e lesão medular “estreitam as veias”?
- Minha alimentação na prática
- Adoçantes: o que estou pensando em testar
- O que mais me preocupa: pés, cicatrização e amputação
- O conselho que eu daria hoje
Antes da glicemia de 224
Eu não cheguei a 2026 sem nenhum aviso. Aproximadamente um ano ou um ano e meio antes, a médica do posto de saúde já tinha conversado comigo sobre pré-diabetes. Eu vinha tendo hemoglobina glicada em torno de 5,9% a 6,2%. Foi ela quem prescreveu a metformina, que eu conheço pelo nome comercial Glifage, para uso diário depois do almoço.
Eu não comecei medicamento por conta própria. Consigo ler parte dos meus exames e gosto de entender o que está acontecendo, mas uma coisa que aprendi é que tratamento precisa de acompanhamento. Posso até discordar e procurar outra opinião, mas não acho correto simplesmente decidir sozinho.
Também existia um histórico familiar muito forte. Meu pai tem diabetes e usa insulina. Tenho irmãos que também desenvolveram diabetes, alguns ainda relativamente jovens. Um dos meus irmãos, que já faleceu, também tinha diabetes e usava insulina. Por tudo isso, eu já sabia que precisava ficar atento.
Ao mesmo tempo, eu já vinha tentando cuidar da alimentação havia anos. Cortei refrigerante, não tenho o hábito de comer doce todos os dias e passei a usar arroz integral e pão integral. Não porque minha alimentação seja perfeita — não é. Se aparecer um pudim muito bom ou o bolo da minha irmã, às vezes eu como. Minha vida real é assim.
O exame de junho de 2026

No dia 3 de junho de 2026, fiz um exame com 11 horas de jejum. A glicemia veio em 224 mg/dL e a hemoglobina glicada (HbA1c) em 6,4%.
Eu não tive aumento de fome, perda de peso, cansaço diferente nem alteração visual. A boca seca eu já tenho há muito tempo por causa do Retemic, que uso para a bexiga neurogênica e que também resseca meus olhos e o nariz. Por isso, não seria correto eu dizer que essa boca seca apareceu por causa da glicose.
Foi um achado de exame. Para mim, isso reforçou uma coisa simples: nem sempre dá para esperar o corpo “avisar”.
Segundo a Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, glicemia de jejum a partir de 126 mg/dL e HbA1c a partir de 6,5% entram nos critérios laboratoriais usados para diagnóstico. Em pessoas sem sintomas típicos, a confirmação deve considerar repetição do teste ou outro teste alterado. Isso ajuda a entender por que um único número precisa ser interpretado dentro do conjunto de exames e da avaliação médica.
O que mudou no exame de agosto

No dia 25 de agosto de 2026, durante uma consulta presencial no ambulatório do SARAH, fiz novos exames. Dessa vez, a glicemia veio em 137 mg/dL, a HbA1c em 6,7% e a glicose média estimada em 146 mg/dL.
À primeira vista, pode parecer estranho a glicose daquele momento ter caído bastante enquanto a HbA1c subiu. Mas são medidas diferentes. A glicemia mostra o valor naquele momento; a HbA1c é usada para estimar a exposição média à glicose ao longo de um período maior. Por isso, elas não precisam andar exatamente juntas em cada coleta.
No meu relatório passou a constar diabetes mellitus tipo 2. Eu prefiro deixar essa diferença clara: uma coisa é o que apareceu no exame, outra é o diagnóstico que ficou registrado no documento médico, e outra ainda é aquilo que o médico conseguiu me explicar na consulta.
As consultas no SARAH e os medicamentos
A consulta presencial foi em 25 de agosto de 2026. Depois, em 10 de setembro, tive uma videochamada de retorno para conversar sobre os exames.
Na minha percepção, as duas consultas foram muito superficiais. Isso me chamou atenção justamente porque, em quase 23 anos de acompanhamento no SARAH, eu estava acostumado a consultas em que as coisas eram mais explicadas. Dessa vez, senti que muita coisa ficou no papel e pouca coisa foi conversada comigo.
Eu já usava Glifage por orientação da médica do posto. Quando perguntei se existia outro medicamento, o Dr. Rafael disse que havia uma opção melhor, mas eu saí sem entender exatamente o que seria feito. Depois, na prescrição, vi que o Glifage tinha sido mantido e que havia sido acrescentado Forxiga para uso pela manhã.
No momento em que escrevo este relato, eu ainda não tinha iniciado o Forxiga. Também passei alguns dias sem o Glifage porque estava sem o medicamento. Estou registrando isso como parte da minha história, não como exemplo a ser seguido. Medicamento, dose, início, suspensão ou troca precisam ser decididos com o profissional que acompanha cada pessoa.
Esse cansaço de correr atrás de consulta, exame, receita e explicação também faz parte da realidade. Chega uma hora em que a burocracia pesa. Eu continuo querendo entender meu tratamento, mas confesso que existem momentos em que a pessoa simplesmente cansa.
Diabetes após lesão medular: existe uma relação?
Eu não posso afirmar que a tetraplegia causou o diabetes. No meu caso existem vários fatores ao mesmo tempo: histórico familiar muito forte, quase 23 anos com mobilidade extremamente reduzida, aumento da gordura abdominal e alterações de composição corporal que aconteceram depois da lesão.
Mas a relação entre lesão medular e risco metabólico é estudada. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 encontrou maior ocorrência de diabetes tipo 2 em pessoas com lesão medular quando comparadas a grupos sem lesão. Outro grande trabalho sobre risco cardiometabólico em lesão medular crônica encontrou, em média, mais gordura visceral, maior resistência à insulina e alterações no metabolismo de carboidratos. Esses estudos mostram associação, não uma causa automática para cada indivíduo. PubMed — revisão sobre diabetes tipo 2 e lesão medular (em inglês) e PubMed — risco cardiometabólico na lesão medular (em inglês).
Quando comecei a entender melhor o diabetes após lesão medular, percebi que não dava para olhar apenas para um exame isolado.
Isso conversa muito com o que vejo no meu próprio corpo. Antes da lesão eu pesava cerca de 59 kg. Em 2026, pesei 68,9 kg. Meus braços e pernas ficaram muito atrofiados, enquanto minha barriga aumentou ao longo dos anos. Parte do volume abdominal também varia bastante quando passo dias sem evacuar, então eu não posso chamar tudo de gordura visceral apenas olhando para mim.
Diabetes e lesão medular “estreitam as veias”?
Eu costumava resumir assim: “o diabetes estreita as veias e a lesão medular também”. Depois de pesquisar melhor, percebi que essa frase precisa ser corrigida para não simplificar demais.
No diabetes, o problema vascular envolve dano ao endotélio e maior risco de aterosclerose e doença arterial periférica, entre outras complicações. Já na lesão medular crônica, estudos descrevem alterações estruturais e funcionais nos vasos, especialmente abaixo do nível da lesão. Uma revisão sistemática de 2025 encontrou, em pessoas com lesão medular, redução do diâmetro arterial, menor fluxo sanguíneo, menor complacência vascular e pior função endotelial em comparação com pessoas sem lesão. Isso não significa simplesmente que “as veias se fecham”, mas confirma que a circulação pode sofrer adaptações importantes depois da lesão. PubMed — revisão sobre disfunção vascular após lesão medular (em inglês).
Para mim, isso tornou o acompanhamento cardiovascular ainda mais relevante, mas sem transformar qualquer inchaço ou alteração nas pernas em “problema de circulação” sem avaliação.
Minha alimentação na prática
Eu não fiz uma mudança radical depois desses exames porque já vinha tentando manter alguns hábitos havia bastante tempo. Como arroz integral há anos e também costumo usar pão integral. Na minha experiência, esses alimentos me deixam mais saciado. Quando saio dessa rotina, sinto fome mais cedo.
Hoje faço aproximadamente quatro momentos de alimentação: café da manhã; almoço mais tarde, por volta de 14h ou 15h; um lanche entre 19h e 21h; e, perto da meia-noite ou uma hora da manhã, normalmente como uma fatia de pão integral junto dos medicamentos que preciso tomar à noite.
Tento evitar refrigerante, doce e suco no dia a dia. Prefiro comer a fruta inteira. Às vezes minha mãe faz suco de maracujá, e eu tomo. Também tomo suco do limão sem açúcar. E, como já contei, aparecem exceções: pudim, bolo, café com açúcar. É por isso que eu não gosto de fingir que sigo uma alimentação perfeita.
A orientação nutricional atual dá preferência a alimentos minimamente processados e fontes de carboidrato com mais fibras, como grãos integrais, legumes e frutas inteiras. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre terapia nutricional também recomenda que o plano seja individualizado e, quando possível, acompanhado por nutricionista. Isso é especialmente importante porque “comer melhor” não significa apenas cortar um alimento isolado.
Uma nutricionista do posto também ficou de vir até minha casa para conversar comigo. Eu já conheço várias orientações gerais, mas ainda considero importante ouvir o profissional e ver o que pode ser ajustado à minha realidade.
Adoçantes: o que estou pensando em testar
Uma dificuldade minha é o café. Eu tomo cerca de meia xícara e ainda uso açúcar porque não gostei dos adoçantes que experimentei. Por isso, quero testar alternativas que sejam aceitáveis para o meu paladar.
Três tipos comuns que pretendo comparar são stevia, sucralose e eritritol. Não estou apresentando nenhum deles como “o melhor adoçante para diabetes” nem como tratamento. A Diretriz Brasileira de Diabetes afirma que edulcorantes não nutritivos podem ajudar a substituir parte do açúcar e reduzir carboidratos ou calorias, mas não há evidência conclusiva de que seu uso, por si só, melhore o controle glicêmico. A recomendação continua sendo moderação e individualização.
Se eu encontrar produtos que realmente use e considere pertinentes, posso acrescentar links de afiliado futuramente. O produto comercial não deve dirigir a orientação de saúde.
O que mais me preocupa: pés, cicatrização e amputação
O que mais me preocupa no diabetes não é apenas o número no aparelho. Eu penso muito na cicatrização e nos membros inferiores. Já vi pessoas próximas passarem por complicações graves e amputações, e isso me aflige.
Eu também tenho os pés muito inchados. Passo muitas horas sentado com eles para baixo e, mesmo quando deito, muitas vezes fico com os joelhos elevados e os pés ainda abaixo da linha do coração. Pela minha própria observação, isso parece contribuir para o inchaço. Mas eu não posso afirmar que seja a única causa, nem atribuir automaticamente esse edema ao diabetes ou aos rins.
As diretrizes atuais de diabetes reforçam a importância da avaliação regular dos pés porque neuropatia, doença arterial periférica, deformidades e feridas aumentam o risco de úlcera e amputação. No meu caso, a própria tetraplegia já altera sensibilidade, mobilidade e inspeção dos membros inferiores, então esse acompanhamento ganha ainda mais importância. American Diabetes Association — cuidados com os pés, 2026 (em inglês).
Amputação não é destino obrigatório de quem recebe diagnóstico de diabetes. O que eu tento fazer é transformar o medo em acompanhamento, sem viver sofrendo antecipadamente.
O conselho que eu daria hoje
Se eu pudesse conversar hoje com uma pessoa com lesão medular que recebeu um exame de glicemia alterado, eu diria para não ignorar. Eu poderia ter desenvolvido diabetes muito antes, considerando meu histórico familiar e tantos anos de tetraplegia. No meu caso, ele apareceu agora, depois de muitos anos tentando moderar algumas coisas na alimentação.
Eu aconselharia a acompanhar os exames, conversar com o médico, procurar orientação nutricional e tentar melhorar a alimentação dentro da realidade de cada pessoa. Eu gosto de fruta inteira, arroz integral e pão integral porque funcionam bem para mim, mas isso não significa que todo mundo precise comer exatamente como eu.
Também faria atividade física ou fisioterapia adaptada dentro do que fosse possível e seguro para cada lesão. Eu mesmo reconheço que fui preguiçoso em muitos períodos da minha vida com relação à fisioterapia. Hoje penso que, mesmo quando um exercício não devolve um movimento perdido, ele pode ter outros objetivos importantes, como preservar articulações, condicionamento e saúde geral.
E eu não esperaria sintomas para procurar acompanhamento. Quando minha glicemia apareceu em 224 mg/dL, eu não senti nada diferente.
Receber a informação de diabetes tipo 2 me deixou triste. Tenho medo de complicações, especialmente nos pés e na cicatrização. Mas não quero viver com ansiedade pelo que ainda não aconteceu. Tento viver um dia de cada vez.
Minha fé continua fazendo parte disso. Eu creio que Jesus pode me curar do diabetes e pode até me levantar desta cadeira. Mas, enquanto houver medicina e tratamento indicado para mim, eu pretendo seguir o que for prescrito. Uma coisa não exclui a outra.
Minha experiência com o diabetes após lesão medular ainda está no começo, e esse acompanhamento vai continuar.
Fontes consultadas
- Sociedade Brasileira de Diabetes — Diagnóstico de diabetes mellitus.
- Sociedade Brasileira de Diabetes — Terapia nutricional no pré-diabetes e diabetes tipo 2.
- Revisão sistemática e meta-análise sobre diabetes tipo 2 após lesão medular (em inglês).
- Revisão sobre risco cardiometabólico na lesão medular crônica (em inglês).
- Revisão sistemática sobre disfunção vascular após lesão medular (em inglês).
- American Diabetes Association — cuidados com os pés, Standards of Care 2026 (em inglês).




