Monitor de pressão arterial em ambiente doméstico representando hipotensão na tetraplegia

Hipotensão na tetraplegia: como eu reconheço quando minha pressão cai

Desde que saí do hospital, depois de 55 dias internado por causa da minha lesão medular cervical, minha pressão passou a cair com frequência. No começo eu nem sabia que aquilo era pressão baixa. Eu só percebia o corpo ficando fraco, a visão mudando e uma sensação ruim que, em algumas ocasiões, terminou em desmaio. Foi com o tempo, especialmente depois do acompanhamento no Hospital SARAH, que comecei a conhecer melhor meu corpo e a reconhecer esses episódios. Hoje, quando falo de hipotensão na tetraplegia, estou falando primeiro da minha experiência: o que sinto, como identifico e o que faço no meu caso.

Importante: este é um relato pessoal, não um protocolo de tratamento. Pressão baixa pode ter causas diferentes, e alguns dos sinais que eu reconheço em mim não são necessariamente sinais típicos em outras pessoas. Episódios recorrentes, desmaios ou sintomas novos precisam ser avaliados por um profissional de saúde.

Hipotensão na tetraplegia: como isso começou para mim

Quando voltei para casa depois da internação inicial, minha pressão “vivia caindo”. Naqueles primeiros meses eu ainda não entendia direito o que estava acontecendo. Eu não tinha aprendido a relacionar fraqueza, escurecimento da visão e sensação de desmaio com a pressão arterial.

Mais tarde, no Hospital SARAH, ouvi de profissionais que a lesão medular podia estar relacionada à pressão mais baixa. Aquela explicação começou a fazer sentido com o que eu já vinha percebendo no dia a dia.

Minha pressão habitual não costuma ser alta. Muitas vezes fica em torno de 10 por 7 ou 10 por 8. Em aparelhos que tive anteriormente, já vi chegar a 7 por 4. Em uma ocasião, quando contei esse valor a um médico de uma UPA, ele chegou a duvidar que minha pressão pudesse ficar tão baixa. Mas, para mim, o mais importante não é olhar apenas um número isolado: é reconhecer quando a queda vem acompanhada daqueles sinais que eu já conheço no meu corpo.

Os sinais que eu reconheço quando minha pressão cai

Na minha experiência com hipotensão na tetraplegia, os sinais que mais reconheço são fraqueza, corpo mole, vista turva ou começando a escurecer e dificuldade maior para falar. Quando a queda está mais forte, até o pouco movimento que tenho nos braços fica mais difícil. Às vezes parece que o braço ficou pesado demais para aquilo que normalmente consigo fazer.

Também existe um sinal muito particular meu: às vezes, ao mastigar, sinto dor no maxilar e preciso parar. Nesses momentos percebo a boca mais difícil para falar e mastigar e fico com receio de me engasgar. Não apresento isso aqui como um sintoma típico de hipotensão. É simplesmente uma sensação que eu aprendi a reconhecer em mim.

Eu também posso ficar muito sonolento. Tenho um problema separado de dormir mal à noite, então sono faz parte da minha rotina mesmo quando a pressão está boa. Ainda assim, quando a pressão cai, tenho a impressão de que esse sono fica mais pesado. Em um dos episódios enquanto eu ditava este relato, cheguei a “pescar” de tanto sono.

Por outro lado, nos meus episódios de pressão baixa eu não costumo ter suor frio, mãos ou pés frios, enjoo, dor de cabeça ou falta de ar. De vez em quando sinto uma espécie de palpitação ou arritmia, mas isso não acontece sempre e eu não considero um sinal obrigatório da queda de pressão.

As três vezes em que desmaiei no banho

Eu me lembro de aproximadamente três desmaios, e os três aconteceram durante o banho. Não sei dizer por que todos foram no banheiro, e não quero inventar uma explicação que eu não tenho.

Também não lembro bem do que senti imediatamente antes. Minha lembrança é de que aconteceu rápido. Eu apagava e depois acordava com meu pai ou meu cunhado me inclinando para trás na cadeira de banho. Eles colocavam um banco ou tamborete atrás, sentavam e viravam a cadeira, deixando meu corpo praticamente numa posição deitado. Eu acabava acordando — às vezes ainda com o olho cheio de sabão.

Esses foram os episódios em que cheguei de fato ao desmaio. Hoje eu reconheço alguns sinais mais cedo e tento agir antes de chegar naquele ponto que costumo chamar de “beirando o abismo”.

Uma medição real: 11/8 antes e 8/6 depois de esvaziar a bexiga

No dia em que terminei este relato, eu já estava me sentindo fraco e sonolento. Meu pai mediu minha pressão antes do cateterismo. O aparelho marcou 110/81 mmHg, que eu costumo arredondar na fala para “11 por 8”.

Aparelho de pressão mostrando 110 por 81 antes do cateterismo

Medição feita em casa antes do cateterismo: 110/81 mmHg. Foto pessoal.

Depois que a bexiga foi esvaziada, medimos novamente e o aparelho marcou 80/64 mmHg, aproximadamente “8 por 6”. Eu já tinha relatado antes que, em algumas ocasiões, quando minha bexiga está cheia e depois é esvaziada, sinto a pressão despencar e vem aquela bambeza forte.

Aparelho de pressão mostrando 80 por 64 depois de esvaziar a bexiga

Medição feita depois de esvaziar a bexiga: 80/64 mmHg. Foto pessoal.

Essa sequência é um registro do que aconteceu comigo naquele momento. Ela não prova sozinha que o cateterismo causou a queda. Na lesão medular alta, uma bexiga muito cheia pode elevar a pressão e participar de episódios de disreflexia autonômica. Diretrizes especializadas também alertam que, depois da correção de um gatilho de disreflexia, pode ocorrer queda de pressão. Mas saber exatamente o que aconteceu em uma medição individual exige avaliação clínica.

O mesmo tipo de sensação pode aparecer para mim depois de esvaziar o intestino quando ele estava muito cheio. Novamente: estou descrevendo o meu corpo, não dizendo que isso acontece da mesma maneira com todas as pessoas com lesão medular.

Pressão baixa não é a mesma coisa que disreflexia autonômica

Essa separação é fundamental na minha história. Quando minha bexiga ou meu intestino estão muito cheios, minha pressão pode subir. Já contei em outro artigo como reconheço a disreflexia autonômica, que para mim vem com um conjunto diferente de sinais.

Na pressão baixa, o que mais noto é fraqueza, visão turva ou escurecendo, corpo mole e sensação de que posso desmaiar. Por isso, olhar minha pressão de referência é importante. Um valor que parece “normal” para outra pessoa pode representar uma mudança relevante para alguém cuja pressão de repouso costuma ser mais baixa.

Nem toda queda que eu sinto é hipotensão ortostática

A medicina usa o termo hipotensão ortostática para uma queda de pressão relacionada à mudança para uma posição mais ereta. Um artigo da Revista da Escola de Enfermagem da USP, disponível no SciELO, explica que pessoas com lesões medulares altas podem apresentar alterações da resposta simpática e do retorno venoso, favorecendo quedas de pressão durante mudanças de posição. Entre as manifestações descritas estão tontura e até desmaio.

Uma diretriz do Consortium for Spinal Cord Medicine, disponível em inglês, define hipotensão ortostática como queda de pelo menos 20 mmHg na pressão sistólica ou 10 mmHg na diastólica ao assumir posição ereta. O documento também destaca que pessoas com lesões medulares altas podem ter pressão de repouso mais baixa e episódios de hipotensão ortostática.

Há também uma revisão especializada atualizada em 2025 pela SCIRE Professional. O site está em inglês. Em resumo, ele explica que a instabilidade da pressão é comum após a lesão medular, principalmente nas lesões mais altas, e cita sintomas como visão borrada, fadiga, fraqueza e desmaio.

Isso ajuda a entender uma parte do que acontece comigo, mas não explica tudo. Eu também tenho episódios de pressão baixa deitado, sem ter mudado de posição e sem identificar um gatilho. Portanto, seria errado chamar automaticamente todas as minhas quedas de pressão de hipotensão ortostática.

O que eu faço quando sinto que a pressão está caindo

Ao longo dos anos fui criando maneiras de reagir quando reconheço a sensação. Uma delas é balançar o tronco para a direita e para a esquerda com o pouco movimento que tenho. Esse movimento costuma provocar espasmos, e muitas vezes percebo que minha pressão melhora depois. Em outras ocasiões, como aconteceu enquanto eu fazia este relato, não resolve.

Eu não apresento isso como uma técnica para outras pessoas. Não é recomendação para provocar espasmo nem para tentar desencadear disreflexia com a intenção de aumentar a pressão. Diretrizes de lesão medular alertam que provocar deliberadamente disreflexia para elevar a pressão — prática conhecida no esporte como “boosting” — pode causar elevações perigosas e imprevisíveis.

Outra coisa que faço é beber água. Em algum momento um médico me orientou a tomar água quando a pressão estivesse baixa, embora eu não me lembre de quem foi nem tenha recebido uma explicação detalhada. Uma diretriz especializada em lesão medular cita o aumento da ingestão de água entre as medidas não farmacológicas que podem ser consideradas na hipotensão ortostática, mas isso não significa que água, sozinha, seja tratamento para toda queda de pressão.

Quando tenho ajuda, levantar as pernas é uma das coisas que mais percebo funcionar para mim. Às vezes apoio o calcanhar da perna direita sobre a esquerda. Também tento elevar os braços dentro das minhas limitações, levando os cotovelos na direção das orelhas. Quando estou na cama, deitar e mudar a posição também costuma ajudar. A melhora não acontece sempre de uma vez; normalmente sinto o corpo voltando aos poucos.

Depois que passa aquele momento mais crítico, ainda posso continuar cansado e sonolento por algum tempo. Nunca cronometrei quanto dura cada episódio, então não vou inventar um tempo médio.

No meu caso, a hipotensão na tetraplegia também pode aparecer quando passo da cama para a cadeira

Existe uma queda de pressão que eu percebo quando passo da cama para a cadeira, e essa situação combina mais claramente com a mudança de posição. Mas não é o único tipo de episódio que tenho. Minha pressão pode cair a qualquer hora do dia, sentado ou deitado. Não existe, para mim, um padrão de “antes do almoço”, “depois do almoço” ou “fim do dia”.

As fontes médicas reforçam justamente a importância de medir a pressão e não tentar adivinhar só pelos sintomas. A diretriz do Consortium for Spinal Cord Medicine afirma que o monitoramento da pressão é essencial para diferenciar hipotensão ortostática de disreflexia autonômica, porque a instabilidade autonômica após uma lesão medular pode produzir quadros muito diferentes.

Em 2010, durante a sepse, foi uma situação diferente

Já tive pressão muito baixa em um contexto completamente diferente. Em 2010, durante a internação por uma infecção grave que evoluiu para sepse, a equipe precisou usar noradrenalina para elevar minha pressão. Eu ouvi os médicos comentando sobre a pressão muito baixa e sempre procurei saber o que estavam administrando e por quê.

Não misturo aquele episódio hospitalar com as quedas que fazem parte da minha rotina. A sepse foi uma situação aguda e grave. Já contei essa história em detalhes no artigo sobre infecção urinária em lesado medular.

Dois itens que fazem sentido neste tema

Monitor de pressão arterial de braço: acompanhar os valores em casa me ajuda a comparar o que estou sentindo com a medição. Um exemplo é o OMRON HEM-7122. O aparelho serve para medir e acompanhar a pressão; não diagnostica sozinho a causa de um episódio.

Garrafa de água com canudo e alça: como beber água faz parte da minha rotina quando sinto a pressão baixa, uma garrafa de 1 litro com canudo e alça, como a Invictus Liquid 1L, pode ser um item prático. Este segundo produto é apenas uma sugestão de organização e hidratação; não estou afirmando que esse modelo trate hipotensão nem que eu use exatamente esse modelo.

Uma parte do meu acompanhamento que ainda preciso aprofundar

Apesar de conviver há muitos anos com essas quedas, nenhum médico me prescreveu um tratamento específico para aumentar minha pressão. Também preciso reconhecer uma coisa: eu nunca fui a fundo com um médico contando a recorrência desses episódios. Fui aprendendo a lidar com o corpo, mas isso não substitui uma investigação individual.

Esse ponto é importante porque desmaios repetidos, pressão muito baixa acompanhada de sintomas ou uma mudança no padrão habitual merecem avaliação. Informações gerais do MedlinePlus, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, orientam procurar atendimento diante de desmaio e sinais como dor no peito, falta de ar ou batimento irregular. No meu caso, se aparecer dificuldade para falar ou engolir muito diferente do que costumo reconhecer, também não é algo que eu trataria simplesmente como “mais uma pressão baixa”.

O que 23 anos me ensinaram sobre reconhecer meu próprio padrão

Depois de tantos anos de lesão medular, eu aprendi que conhecer minha pressão habitual é tão importante quanto olhar o número que aparece no aparelho. Também aprendi que hipotensão na tetraplegia e disreflexia autonômica são situações diferentes, mesmo que as duas façam parte da instabilidade da pressão que eu conheço no meu corpo.

Quando a pressão cai, eu reconheço principalmente a fraqueza, a visão turva ou escurecendo, o corpo mole e a sensação de desmaio. Tento reagir antes de apagar. Algumas coisas parecem ajudar no meu caso, mas não transformo minha experiência em receita para outra pessoa.

Para quem vive com lesão medular, considero muito importante aprender a própria pressão de referência e conversar com uma equipe que conheça as alterações autonômicas da lesão. Foi no SARAH que comecei a entender melhor essas diferenças. E quanto mais eu aprendo a observar meu corpo, mais percebo que dois números no aparelho contam apenas uma parte da história.

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