Uma das tarefas mais importantes na rotina de quem é tetraplégico — tanto para quem vive isso quanto para quem cuida — é a transferência de cama para cadeira: sair da cama para a cadeira de rodas ou para a cadeira de banho.
Eu preciso de ajuda 24 horas por dia, e por muito tempo essa transferência foi feita de um jeito que, olhando para trás, exigiu um esforço físico muito grande de quem cuidava de mim.
Aviso de segurança: este artigo relata como a transferência é feita no meu caso. O guincho que uso foi construído especificamente para a minha casa e para a minha rotina. Transferências envolvem risco de queda e lesão, e equipamentos que suspendem uma pessoa precisam ser adequados à pessoa, ao ambiente e à forma de uso. Quando houver dúvida sobre a técnica ou o equipamento, vale buscar orientação de fisioterapeuta, terapeuta ocupacional ou outro profissional qualificado.
Como era antes: na base do braço
Durante anos, a transferência era feita assim: uma pessoa segurava por baixo dos meus braços, na região das axilas, e outra segurava minhas pernas. Juntas, elas me colocavam na cadeira.
Quando eu tinha uma companheira, ela chegou a fazer essa transferência sozinha por muito tempo. Nesse período, ela desenvolveu hérnia de disco e alterações na cervical conhecidas popularmente como “bico de papagaio”. Na nossa experiência, todo aquele esforço físico repetido certamente passou a ser uma preocupação.
Hoje sabemos também que levantar, transferir e reposicionar manualmente uma pessoa pode representar risco de lesões musculoesqueléticas para quem cuida, especialmente quando isso é feito repetidamente.
risco de lesões musculoesqueléticas para quem cuida A fonte está em inglês; o navegador pode traduzir a página.
Na época, ainda não tínhamos pensado em construir um guincho — e foi assim, no esforço físico direto, por bastante tempo.
Se você cuida de alguém com lesão medular e faz transferências com grande esforço físico, meu relato serve como alerta para procurar uma forma mais adequada à situação de vocês, levando em conta a capacidade da pessoa, de quem cuida e os equipamentos disponíveis.
A solução no meu caso: um guincho de teto artesanal
Hoje a transferência ficou muito mais tranquila na minha rotina porque construímos um guincho de teto junto com meu primo.
Ele me ajudou a projetar e montar a estrutura que uso em casa, feita com metalon. Minha cunhada fez os suspensórios — as “redinhas” de tecido que sustentam meu corpo durante o içamento.
Esse sistema é uma adaptação feita para o meu caso e não deve ser entendido como projeto técnico ou medida universal para outras casas. Estrutura, pontos de fixação, carga, componentes e condições do imóvel podem ser diferentes.
Com o meu guincho, quem está me ajudando não precisa erguer manualmente o peso do meu corpo. No meu caso e com o sistema que usamos, uma pessoa consegue realizar a transferência inteira.
Isso mudou completamente a realidade de quem cuida de mim, especialmente hoje, quando grande parte da ajuda vem do meu pai, que está perto dos 80 anos.
(Tenho também um artigo específico sobre o meu guincho de teto artesanal, no qual mostro como o sistema que uso foi construído, com fotos e vídeos. As medidas e materiais daquele artigo são o relato da minha instalação, não um projeto de engenharia para ser copiado sem avaliação.)
Como funciona a transferência de cama para cadeira hoje
Alguém precisa colocar o suspensório em mim antes de acionar o guincho.
No sistema que uso, a parte das pernas passa por trás dos meus joelhos, enquanto a parte superior passa pelas minhas costas, pela região abaixo das axilas e atrás dos ombros.
Para posicioná-lo, a pessoa me vira um pouco para a direita para passar uma parte e depois para a esquerda para passar a outra. Depois faz os ajustes necessários para que eu fique bem acomodado e não termine torto na cadeira.
Esse posicionamento é específico do suspensório que fizemos para mim. Outros equipamentos e modelos de sling podem ter formas diferentes de colocação e devem seguir suas próprias instruções de uso.
Depois disso, sou içado e posicionado sobre a cadeira.
Na minha rotina, normalmente fazemos todo o processo — colocar o suspensório, içar e me acomodar na cadeira — em menos de cinco minutos. Esse é apenas o tempo que conseguimos no meu caso, depois de anos fazendo a mesma rotina, e não uma previsão para outras pessoas.
Uso o mesmo sistema para me transferir tanto para a cadeira de rodas quanto para a cadeira de banho.


Por que optei por construir em vez de comprar
Quando comecei a pesquisar sobre guinchos, cheguei a encontrar um sistema muito sofisticado: instalado pela casa, com trilhos no teto que permitiam fazer o deslocamento entre diferentes ambientes.
Na época em que pesquisei, encontrei sistemas desse tipo que passavam de R$ 100 mil. Para a minha realidade, era totalmente inviável.
A ideia de construir o meu próprio guincho veio de um vídeo caseiro que encontrei na internet: um senhor sendo transferido da cadeira para a cama com ajuda de uma estrutura simples.
Foi ali que pensei: “vou fazer um desse para mim”.
Chamei meu primo — que é daquelas pessoas que sabem fazer de tudo — e construímos essa “engenhoca” juntos.
Hoje, já teve gente que veio até minha casa só para conhecer o sistema, e os comentários sobre a ideia têm sido muito positivos.
Mas continuo fazendo uma distinção importante: o fato de esse equipamento funcionar na minha casa e na minha rotina não significa que a mesma construção seja adequada para outra pessoa ou outro imóvel.
Para quem não tem como construir um guincho artesanal
Nem todo mundo tem a possibilidade — ou alguém como meu primo por perto — para montar uma estrutura como a nossa.
E construir um sistema artesanal também não é a única alternativa.
Existem no mercado equipamentos desenvolvidos especificamente para transferência de pessoas, incluindo guinchos móveis e outros sistemas assistivos. O equipamento adequado depende de fatores como nível de mobilidade, capacidade de sustentar parte do próprio peso, peso corporal, espaço disponível, cadeira utilizada e ajuda disponível.
A fonte está em inglês; o navegador pode traduzir a página.
Também existem pranchas de transferência e outras técnicas, mas elas não servem da mesma maneira para todas as pessoas. Dependendo do nível da lesão e da capacidade funcional, pode ser necessária assistência de outra pessoa ou um equipamento de elevação.
Por isso, antes de escolher uma solução, pode valer a pena conversar com um fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional que conheça a condição da pessoa e o ambiente onde as transferências serão feitas.
Equipamentos para pesquisar
Se você estiver procurando um produto pronto, dê preferência a equipamentos que sejam claramente destinados à transferência de pessoas, observando as instruções do fabricante, capacidade de carga, tipo de suspensório, manutenção e forma correta de operação.
Guincho elétrico de coluna 110 V — modelo similar ao que uso
Guincho elétrico de coluna 220 V — modelo similar ao que uso
Não recomendo escolher uma talha ou equipamento de elevação apenas pela capacidade de peso anunciada. Equipamentos destinados à suspensão e transferência de pessoas possuem requisitos próprios de segurança.
O que fica desse relato
Durante muitos anos, a transferência de cama para cadeira significou depender diretamente da força física de outras pessoas.
No meu caso, encontrar uma forma de fazer isso sem que alguém precisasse erguer meu peso corporal mudou muito a rotina dentro de casa.
Se você cuida de alguém com lesão medular e a transferência exige grande esforço físico, vale conhecer as alternativas disponíveis e buscar uma solução compatível com aquela pessoa e com aquele ambiente.
Pode ser um equipamento de elevação, uma prancha de transferência, outra tecnologia assistiva ou uma técnica orientada por um profissional. O importante é não presumir que a mesma solução serve para todos.
O corpo de quem cuida também merece proteção.
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