Materiais de cateterismo e curativos usados na rotina domiciliar

Catheterization and Dressing Supplies: My Real Routine

Depois de mais de duas décadas vivendo com tetraplegia, aprendi que o cateterismo e os curativos não dependem apenas de saber o que fazer. Dependem de ter material disponível todos os dias. Neste artigo sobre materiais de cateterismo e curativos, quero mostrar o que realmente uso em casa, o que recebo do posto, o que falta, o que já precisei comprar e por que estou tentando organizar tudo em um relatório mais completo.

Este é o meu relato pessoal. As quantidades abaixo correspondem à minha rotina atual ou à necessidade que eu estou levantando com minha família. Não são uma lista universal para outras pessoas com lesão medular. Cateterismo, escolha de sonda, lubrificação, coberturas de feridas e frequência de curativos precisam ser definidos de forma individual por profissionais que conheçam cada caso.

Sonda, gaze, luvas, soro e outros materiais usados nos cuidados diários

Por que comecei a organizar esses materiais

Quando alguém olha de fora, uma sonda, uma caixa de luvas, um pacote de gaze ou um rolo de Micropore podem parecer itens simples. Na minha rotina, cada um deles tem uma função e a falta de um acaba mudando todo o cuidado.

Hoje dependo de outras pessoas para o cateterismo e para os curativos. Meu pai faz grande parte das sondagens. Minha mãe e minha cunhada também participam dos cuidados. Para conseguir os materiais no posto, às vezes minha família precisa ir mais de uma vez até conseguir a liberação. Isso pesa ainda mais porque não existe sobra de gente aqui em casa para ficar indo e voltando.

Foi por isso que comecei a separar os materiais de cateterismo e curativos por quantidade, uso e frequência. Quero saber o que realmente preciso hoje, sem pedir material a mais, mas também sem continuar ficando sem o que é necessário.

Os materiais que uso no cateterismo

Minha rotina de cateterismo já aparece em outros artigos do site, principalmente no relato sobre bexiga neurogênica na tetraplegia. Aqui o foco é outro: os materiais.

Sonda Nelaton nº 12

Uso sonda Nelaton calibre 12. Normalmente faço quatro a cinco cateterismos por dia, sendo cinco uma frequência muito comum na minha rotina. Se eu usar cinco sondas por dia durante 30 dias, a referência chega a 150 sondas no mês.

Esse número é importante porque um relatório antigo do SARAH registra 120 sondas por mês, embora no próprio texto também apareça a informação de cinco cateterismos por dia. Por isso não quero simplesmente copiar uma quantidade antiga. Quero que o próximo relatório reflita melhor o que acontece hoje.

Em dezembro de 2025, por exemplo, precisei comprar um kit com 800 sondas nº 12. O pedido ficou em R$ 633,21. Guardei o comprovante porque compras como essa mostram que o problema não é teórico: quando o material falta, alguém precisa pagar.

Gaze pequena para higiene

A gaze pequena que estou recebendo mede 7,5 × 7,5 cm dobrada e 15 × 30 cm aberta, em pacote com 10 unidades. Quando há material suficiente para fazer a higiene que aprendi na reabilitação, separamos seis gazes: três para a primeira parte da limpeza e três para a sequência.

Ultimamente, porém, os insumos estão poucos e nem sempre consigo manter essa higiene em todas as sondagens. Esse é justamente um dos problemas que quero documentar. Não considero correto fingir que o consumo atual reduzido representa a necessidade real se a redução acontece porque o material está faltando.

Lidocaína/Xilocaína gel 2%

Uso lidocaína gel a 2% para facilitar a passagem da sonda. Um relatório do SARAH de 2024 registrou oito bisnagas por mês. Um relatório de 2026 já registrou quatro tubos por mês. Pela minha rotina atual, considero quatro tubos mensais suficientes.

A apresentação que uso é de aproximadamente 20 ou 30 gramas por tubo, mas ainda preciso conferir a embalagem para registrar o tamanho exato. Prefiro deixar esse detalhe pendente a publicar um número de que não tenho certeza.

Meu pai nem sempre consegue manusear bem a lidocaína. Quando a sonda entra muito seca, percebo que ela pode agarrar e causar incômodo, mesmo eu tendo sensibilidade reduzida. Como já contei no artigo sobre a bexiga neurogênica, também tenho enfrentado períodos de maior resistência para introduzir a sonda, o que precisa continuar sendo acompanhado pela urologia.

Luvas de procedimento tamanho M

Quando meu pai passa a sonda, ele prefere usar luvas de procedimento não estéreis. Minha mãe nem sempre usa luva no cateterismo domiciliar porque segue a técnica limpa que aprendemos no SARAH, com higiene das mãos. Isso é parte do treinamento que minha família recebeu e não uma instrução para outra pessoa reproduzir sem orientação.

Considerando sondagem, limpeza e curativos, duas caixas por mês, com 100 luvas em cada caixa, são uma referência suficiente para nossa rotina. O tamanho que funciona melhor aqui é M.

Recipiente em casa e saco coletor para sair

Em casa, a urina costuma ser coletada em um recipiente reutilizável com capacidade aproximada de 1,5 litro e depois é desprezada no vaso. Prefiro esse tamanho porque às vezes o volume drenado é alto.

Quando saio, o saco coletor descartável é mais prático. Como saio pouco, cerca de 10 sacos por mês já seriam suficientes. Nunca recebi esse item regularmente pelo posto. No SARAH, quando precisei fazer o procedimento durante o atendimento, já tive acesso ao material para coleta.

O dispositivo urinário externo não funcionou bem para mim

Também conheço o dispositivo urinário externo, parecido com um preservativo ligado a uma mangueira e a um saco. Não gosto de usar. Na minha experiência, ele pode soltar e a forma de fixação já me incomodou e apertou demais. Por isso, não quero incluí-lo como necessidade atual só porque apareceu em um relatório.

Para pequenas perdas de urina, prefiro usar absorvente geriátrico/adulto tamanho G. Para mim, duas unidades por dia, cerca de 60 por mês, são suficientes. O tamanho GG sobra demais e atrapalha principalmente quando estou sentado e preciso fazer o cateterismo.

Os materiais que uso nos curativos

Além da bexiga neurogênica, convivo atualmente com feridas que exigem limpeza e cobertura diária. Por isso, os materiais de cateterismo e curativos acabam se misturando no orçamento e na logística da casa.

Normalmente faço um curativo completo por dia. Quando a ferida suja com fezes, preciso trocar novamente. Isso não acontece todos os dias, mas também não é algo raro a ponto de poder ser ignorado no cálculo.

Gaze grande de 91 × 60 cm

Embalagem de gaze estéril grande de 91 por 60 centímetros usada nos curativos

Uso uma gaze grande estéril de 91 × 60 cm porque as feridas ocupam uma área que a gaze pequena não cobre bem. No curativo completo, costumo usar quatro gazes grandes. Quando preciso refazer o curativo por contaminação com fezes e permaneço deitado, às vezes uso uma gaze grande de cada lado depois da limpeza.

Quando falta a gaze grande, minha família precisa abrir vários pacotes das gazes pequenas e sobrepor uma à outra. Funciona pior. A cobertura fica estreita, mais remendada e, na minha percepção, machuca mais.

Gaze pequena para limpar e secar

Pacote de gaze estéril pequena com 10 unidades usada na limpeza das feridas

Na limpeza diária das feridas e da região ao redor, usamos em torno de quatro pacotes de gaze pequena. Essa limpeza é feita na cama, tomando banho ou não.

Também usamos gaze para a higiene da virilha, inclusive para retirar resíduos de pomada antes de aplicar novamente. Por isso, não faz sentido calcular esse consumo somente pelos dias de banho. O cuidado continua sete dias por semana.

Soro fisiológico

Quando eu recebia soro fisiológico, normalmente vinham frascos de 250 ou 500 ml. Já faz bastante tempo que não recebo regularmente. Na falta, em algumas limpezas minha família tem recorrido à água filtrada.

Pela minha estimativa, seis frascos de 500 ml por mês, totalizando 3 litros, seriam suficientes para a limpeza das feridas na minha rotina atual. Quero incluir esse item no novo relatório para que a necessidade seja avaliada e formalizada.

Alginato

Uma das coberturas que já recebi e que funciona muito bem no meu caso é a placa de alginato. Quando tenho o material, percebo que ele absorve bastante secreção e ajuda a manter a região mais seca. Minha referência é de aproximadamente 10 placas por mês.

O tamanho exato ainda precisa ser formalizado. Antigamente eu recebia placas maiores; recentemente apareceram apenas duas placas pequenas entre os materiais retirados no posto. Pretendo conseguir uma prescrição atual para deixar o uso documentado.

O alginato não é uma cobertura universal para qualquer ferida. A Nota Técnica da Prefeitura de Belo Horizonte orienta que a escolha da cobertura seja feita conforme as características da lesão e a avaliação profissional. O documento inclui o alginato com cálcio entre as coberturas padronizadas da rede SUS-BH e reforça que a quantidade de exsudato é um dos fatores considerados na seleção do curativo. Ver protocolo da PBH.

Micropore de 10 cm

Hoje prefiro o Micropore de 10 cm de largura. Antigamente eu usava o de 5 cm e precisava juntar cerca de três faixas para conseguir cobrir a região. Com o de 10 cm, uma faixa resolve melhor e fica menos embolada.

Costumo gastar entre um e dois rolos por mês, normalmente quase dois. Em dezembro de 2025 comprei um kit com seis rolos de 100 mm × 10 m por R$ 69,90.

Esse é um exemplo de material temporário. Se as feridas cicatrizarem e eu não precisar mais dele, não quero continuar retirando só porque um relatório antigo citava o produto. A ideia é ajustar o fornecimento à necessidade real.

Quando falta material, a rotina piora

Uma coisa é ler uma lista de insumos. Outra é viver o dia em que a gaze grande acabou, o soro não veio ou a quantidade de sonda não fechou o mês.

Quando falta gaze grande, fazemos uma cobertura improvisada com gazes pequenas sobrepostas. Quando não há soro, já usamos água filtrada na limpeza. Quando os pacotes de gaze são insuficientes, a higiene antes do cateterismo acaba sendo reduzida.

Não estou apresentando essas substituições como técnica correta ou recomendação. Estou mostrando o que acontece na vida real quando o material que deveria sustentar uma rotina contínua não chega em quantidade suficiente.

Também existe o desgaste para buscar. Em alguns períodos, minha família precisou ir ao posto duas ou três vezes até conseguir retirar o material. Para uma casa em que eu dependo de ajuda e meus pais também têm limitações físicas, cada viagem desnecessária pesa.

As quantidades que estou levantando hoje

Esta é a fotografia da minha necessidade atual. Alguns números são referências mensais e ainda serão levados ao SARAH e à equipe de saúde para conferência e formalização.

MaterialReferência atualObservação
Sonda Nelaton nº 124 a 5 por dia; referência de 150/mêsUso contínuo
Lidocaína gel 2%4 tubos/mêsGramas por tubo ainda a confirmar
Luvas de procedimento M2 caixas de 100 unidades/mêsUso por cuidadores em sondagem, higiene e curativo
Gaze pequena4 pacotes/dia na limpeza das feridas, além do uso no cateterismo quando há materialConsumo mensal total ainda não fechado com segurança
Gaze grande 91 × 60 cm4 por curativo diário, com extras quando há nova trocaUso enquanto houver feridas
Soro fisiológico6 frascos de 500 ml/mêsReferência de 3 litros/mês
AlginatoCerca de 10 placas/mêsTamanho ainda a formalizar
Micropore 10 cm1 a 2 rolos/mêsQuase 2 na rotina atual
Saco coletor descartável10/mêsPrincipalmente para saídas
Absorvente geriátrico/adulto G2/dia; cerca de 60/mêsPara pequenas perdas

Eu faço questão de separar o que é contínuo do que é temporário. Sonda e materiais ligados à bexiga fazem parte de uma necessidade de longo prazo. Já gaze grande, alginato e Micropore podem deixar de ser necessários quando as feridas cicatrizarem.

Relatórios do SARAH com números diferentes

Trechos de relatórios médicos com diferentes quantidades mensais de materiais de cuidado

Os próprios documentos que tenho mostram por que essa atualização é necessária.

Em um relatório de 2024 aparecem 120 sondas nº 12 por mês, oito bisnagas de lidocaína, 600 gazes e 120 fraldas. Em outro documento, também de 2024, aparece a informação de 120 fraldas, mas com tamanho diferente. Já em 2026 o relatório passou a registrar quatro tubos de lidocaína por mês, um pacote com 500 gazes e outros materiais, sem repetir exatamente as quantidades antigas.

Não vejo isso como motivo para escolher o maior número e pronto. Quero fazer o contrário: mostrar ao SARAH o consumo que existe hoje e pedir um documento novo, coerente com a minha rotina atual.

Também quero que itens que hoje uso sem estarem bem formalizados, como o alginato e o soro fisiológico para a limpeza das feridas, sejam avaliados pelos profissionais e incluídos se houver indicação.

Compras que já precisei fazer

Quando o fornecimento não acompanha a necessidade, o gasto vai para a família. Tenho guardado comprovantes porque eles ajudam a mostrar quanto esses insumos pesam quando precisam ser comprados.

  • Em dezembro de 2025, um kit com 800 sondas nº 12 custou R$ 633,21.
  • No mesmo mês, um kit com seis rolos de Micropore de 10 cm custou R$ 69,90.
  • Em fevereiro de 2026, uma compra com 200 unidades de absorvente geriátrico/adulto ficou em R$ 98,98.
  • Também tenho um comprovante de Pix de R$ 950,84, feito em setembro de 2024 para uma empresa de produtos hospitalares. Esse comprovante, sozinho, não identifica quais itens estavam incluídos, por isso não vou atribuir esse valor a um material específico.

A última compra de sondas feita por minha irmã ainda será adicionada quando eu receber o comprovante correto. Prefiro esperar o documento a publicar de memória uma quantidade ou valor errado.

O que aprendi sobre fornecimento público

Uma coisa importante é não confundir “está no SUS” com “o posto obrigatoriamente tem exatamente este material e esta quantidade”. A organização do fornecimento é descentralizada e pode envolver União, Estado e Município.

O Ministério da Saúde explica que parte dos medicamentos e insumos da Atenção Primária é adquirida de forma descentralizada, com estados e municípios participando da seleção, programação, compra, armazenamento e dispensação conforme a organização local. Ver explicação do Ministério da Saúde.

Existe também uma decisão federal de 2019 que incorporou ao SUS o cateter hidrofílico para cateterismo vesical intermitente em pessoas com lesão medular e bexiga neurogênica. Ver Portaria nº 37/2019 da Conitec. Isso não significa que eu esteja usando esse modelo hoje: minha rotina atual é com sonda Nelaton nº 12.

Por isso, antes de afirmar no site que determinado produto “é fornecido pelo SUS”, eu quero conferir o fluxo real aplicável ao meu caso e à minha região. O fato de eu receber alguma coisa gratuitamente no posto não prova sozinho qual esfera de governo comprou ou financiou aquele item.

Meu próximo passo: um relatório atualizado

Depois de organizar esses materiais de cateterismo e curativos, meu próximo passo é levar uma lista consolidada ao SARAH e pedir um relatório novo, com as necessidades atuais e as quantidades revisadas.

Também quero manter receitas, relatórios, comprovantes de compra e registros das faltas. Se eu precisar procurar orientação jurídica no futuro, não quero chegar apenas dizendo que “gasto muito” ou que “o material falta”. Quero apresentar documentos que mostrem o que uso, quanto uso, o que recebo, o que compro e o que ficou sem fornecimento.

Esse levantamento não é para acumular material nem retirar o que não preciso. Pelo contrário. Se uma ferida fechar e eu deixar de precisar de alginato, gaze grande ou Micropore, a quantidade deve ser reduzida ou cancelada. O objetivo é ter o necessário enquanto houver necessidade.

Para mim, essa é a parte que muitas vezes fica invisível quando se fala em lesão medular: não basta prescrever um procedimento. A pessoa precisa ter acesso aos materiais, depender de alguém para executar o cuidado e conseguir manter essa rotina todos os dias.

Aviso: este artigo relata minha experiência pessoal e reúne informações gerais sobre insumos e organização do cuidado. Não é uma prescrição de materiais, não ensina uma técnica universal de cateterismo e não substitui avaliação de enfermagem, urologia, reabilitação ou equipe responsável por feridas.

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