Depois de mais de duas décadas vivendo com tetraplegia, os medicamentos fazem parte da minha rotina tanto quanto o cateterismo, os cuidados com o intestino e as adaptações do dia a dia. Neste artigo sobre medicamentos na tetraplegia, quero mostrar o que eu realmente uso, para que cada remédio foi prescrito no meu caso, o que recebo pelo poder público, o que preciso comprar e quanto algumas dessas compras pesam no meu orçamento.
Minha lista não deve ser usada como receita para outra pessoa. Tenho lesão medular C4, bexiga e intestino neurogênicos, dor neuropática, espasticidade, osteoporose e diabetes tipo 2, entre outras condições acompanhadas ao longo dos anos. Doses, horários e combinações abaixo fazem parte da minha história e precisam ser avaliados individualmente por médico e farmacêutico.
Importante: durante a preparação deste artigo encontrei diferenças entre algumas receitas antigas, relatórios recentes e a forma como uso determinados medicamentos hoje. Quando isso acontece, eu sinalizo no texto. Não estou transformando divergência de prontuário em orientação de dose.
Índice
- Minha lista de medicamentos
- O que recebo de graça e o que compro
- Baclofeno e gabapentina: espasmos e dor
- Imipramina e oxibutinina na minha bexiga
- Domperidona, simeticona e PEG 4000
- Glifage e o Fosiga que ainda não comecei
- Alendronato e vitamina D
- Minha história difícil com clonazepam
- Rosuvastatina: um uso por conta própria
- O que descobri sobre o Farmácia Popular
- Custos, falta de estoque e burocracia
- Fontes e futuras atualizações
Minha lista de medicamentos
O relatório do Hospital SARAH de agosto de 2026 reúne sete medicamentos que faziam parte do meu acompanhamento naquele momento: baclofeno, imipramina, gabapentina, oxibutinina, domperidona, simeticona e Glifage. Outras receitas acrescentaram alendronato, colecalciferol, clonazepam e polietilenoglicol 4000. Nem todos são usados todos os dias, e alguns tiveram mudanças de apresentação ou de horário ao longo dos anos.

| Medicamento | Como aparece na minha rotina | Como consigo hoje |
|---|---|---|
| Baclofeno 10 mg | Uso atual para espasmos/espasticidade | Prefeitura, entregue no posto; compro quando falta |
| Imipramina 25 mg | Uso atual no manejo urinário | Prefeitura, entregue no posto |
| Gabapentina 400 mg | Uso atual para dor neuropática | Secretaria de Saúde, em retirada periódica |
| Oxibutinina/Retemic 5 mg | Uso atual para bexiga neurogênica | Prefeitura, entregue no posto; compro quando falta |
| Domperidona 10 mg | Uso atual para empachamento/refluxo no meu caso | Compra particular |
| Simeticona | Costumo usar à noite; estava há cerca de dois meses sem comprar durante o relato | Compra particular |
| Glifage XR 500 mg | Prescrito para diabetes tipo 2 | Compra particular na minha rotina até aqui |
| Alendronato 70 mg | Uso semanal após diagnóstico de osteoporose | Compra particular até aqui |
| Vitamina D 50.000 UI | Uso semanal prescrito após vitamina D baixa | Compra particular |
| Clonazepam 2,5 mg/mL | Receita recente para noites de insônia; eu ainda não tinha voltado a usar | Receita controlada |
| Polietilenoglicol 4000 | Uso conforme necessidade do intestino | Compra particular |
Além dessa lista, o médico acrescentou dapagliflozina (Fosiga/Forxiga) para o diabetes, mas eu ainda não comecei porque encontrei a caixa de 30 comprimidos por aproximadamente R$ 99 a R$ 100. Também usei rosuvastatina 20 mg por conta própria por cerca de um ano; conto isso mais abaixo porque não quero misturar medicamento prescrito para mim com medicamento que comecei sem orientação individual.
Medicamentos na tetraplegia: o que recebo de graça e o que compro
Uma coisa que aprendi na prática é que “receber de graça” não significa automaticamente Farmácia Popular. Baclofeno, imipramina e oxibutinina, por exemplo, têm sido fornecidos para mim pela Prefeitura e entregues no posto. A gabapentina segue outro caminho, pela Secretaria de Saúde, com mais documentação e retirada periódica.
O Ministério da Saúde organiza a Assistência Farmacêutica do SUS em componentes diferentes, com responsabilidades que podem envolver União, estados e municípios. Por isso, duas pessoas podem receber medicamentos por fluxos diferentes mesmo sem pagar por eles. O Ministério da Saúde explica os componentes da Assistência Farmacêutica, e a Rename é a referência nacional para consultar medicamentos disponíveis no SUS e responsabilidades de financiamento.
Baclofeno e gabapentina: espasmos e dor neuropática
Baclofeno
Uso baclofeno desde os primeiros anos depois da lesão. Comecei por volta de 2004 com uma quantidade menor e, nos anos seguintes, o SARAH aumentou a prescrição. Hoje, no meu relato, uso dois comprimidos de 10 mg a cada oito horas, seis comprimidos por dia. Sem ele, meus braços fecham muito mais por causa dos espasmos. É um dos medicamentos que eu sinto que não consigo simplesmente deixar faltar.
Existe uma divergência documental que quero deixar transparente: um relatório recente registra baclofeno 10 mg de 6/6 horas, enquanto minha rotina relatada é de 20 mg de 8/8 horas. A quantidade diária acaba sendo diferente. Esse é um ponto que precisa ser conferido com a equipe que acompanha meu tratamento, e não copiado por outra pessoa.
Ultimamente o baclofeno vem pela Prefeitura e é entregue no posto. Quando falta, eu compro. Para mim, esperar dias sem tomar não é uma opção prática por causa do aumento dos espasmos.
Gabapentina
A gabapentina faz parte do meu tratamento da dor neuropática. Hoje uso 400 mg de 6/6 horas. No começo a apresentação prescrita era de 300 mg, mas o fornecimento que passei a receber pela Secretaria é de 400 mg.
A retirada é mais burocrática. Um amigo me ajuda, eu preciso providenciar receita, mando documentação por motoboy e pago o deslocamento para levar e trazer o medicamento. Às vezes recebo quantidade para um mês; em outras retiradas, para dois meses. Só descubro na hora quanto será liberado.
Imipramina e oxibutinina na minha bexiga neurogênica
Dois medicamentos fazem parte há muitos anos do meu manejo da bexiga neurogênica: imipramina e oxibutinina. O que explico aqui é o motivo pelo qual foram usados no meu caso, não uma indicação universal para pessoas com lesão medular.
Imipramina
Tomo imipramina 25 mg de 6/6 horas. O próprio SARAH já me explicou que ela é um antidepressivo, mas no meu tratamento foi usada como parte do controle urinário. Quando fico sem ela, percebo mais incontinência. No passado também tive crises de dor de cabeça muito forte quando a bexiga enchia; chegaram a investigar minha cabeça com tomografia e eu passei a relacionar aquelas crises ao quadro urinário. Hoje não tenho mais aquele padrão de dor.
A imipramina é fornecida pela Prefeitura e entregue no posto. Até hoje eu não precisei comprá-la.
Oxibutinina / Retemic
Atualmente uso oxibutinina/Retemic 5 mg de 6/6 horas. Sem ela, na minha experiência, aparecem contrações da bexiga com volumes pequenos, sudorese, sensação de frio e incontinência frequente. Antes de chegar ao SARAH, passei meses convivendo com vazamentos durante a noite. Quando comecei o tratamento, isso mudou muito minha rotina.
O comprimido comum me causa um ressecamento muito forte na boca, no nariz e nos olhos. Já usei Retemic UD e, na minha experiência, não sentia o mesmo ressecamento, mas o preço era mais alto.
Também já usei oxibutinina intravesical manipulada a 0,1%. Um relatório do SARAH de 2024 registra 10 mL, de três a quatro vezes ao dia. Depois do cateterismo, a solução era aplicada pela própria sonda, conforme a orientação que recebi. Eu preferia essa forma porque tolerava melhor, mas o custo e a logística pesaram. Duas embalagens manipuladas de 900 mL custavam cerca de R$ 170 já com motoboy.
Quando o Retemic em comprimidos faltou no fornecimento público, paguei R$ 66,99 por uma caixa com 60 comprimidos. Como uso quatro por dia, uma caixa dura aproximadamente metade do mês; duas caixas, no mesmo preço, chegariam a cerca de R$ 133,98 para 30 dias.

Domperidona, simeticona e polietilenoglicol 4000
A domperidona foi prescrita pelo SARAH para o empachamento, a distensão abdominal e o refluxo no meu caso. Tenho a cabeceira da cama elevada e percebo também pigarro quando o refluxo piora. Além disso, tenho a impressão de que a domperidona ajuda meu intestino, mas essa parte é percepção pessoal.
O relatório registra domperidona 10 mg de 12/12 horas. Na minha rotina relatada, costumo tomar dois comprimidos no período da noite, em horários mais próximos. Como isso não coincide exatamente com o horário escrito no relatório, considero mais um ponto para revisar com o médico, em vez de apresentar minha rotina como esquema recomendado.
Esse medicamento eu compro. Em uma compra recente, quatro caixas de 30 comprimidos custaram R$ 22,36 no total. Como uso dois comprimidos por dia, aquela compra correspondia a cerca de dois meses.
A simeticona também é comprada. Costumo usar 40 a 50 gotas à noite. Durante este relato eu já estava havia aproximadamente dois meses sem comprar e percebia falta dela. Quando encontro um preço bom, prefiro comprar várias unidades de uma vez. Em uma compra, três frascos de 15 mL custaram R$ 14,37.
O polietilenoglicol 4000 foi prescrito para o meu intestino neurogênico. A receita registra 10 g dissolvidos em água ou suco. Na prática, quando volto a usar, começo diariamente e depois passo para dia sim, dia não, conforme minha necessidade. O próprio produto vem com dosador. Eu estava havia bastante tempo sem comprar, principalmente pelo preço.
Glifage e o Forxiga (Dapagliflozina) que ainda não comecei
O Glifage XR 500 mg foi prescrito para o meu diabetes tipo 2. Tomo um comprimido por dia depois do almoço. Durante a coleta deste relato eu estava sem ele porque ainda precisava comprar. Em uma promoção paguei R$ 7,99 pela caixa com 30 comprimidos; normalmente encontro por volta de R$ 12.
Na consulta de 2026, o Fosiga/Forxiga (dapagliflozina) apareceu acrescentado à prescrição, mantendo o Glifage. Eu não comecei a dapagliflozina. Quando consultei o preço, encontrei a caixa com 30 comprimidos por aproximadamente R$ 99 a R$ 100, e decidi primeiro tentar entender se consigo acesso pelo poder público.
Essa parte do tratamento está ligada ao artigo em que conto como o diabetes apareceu nos meus exames de 2026. Eu não recomendo que ninguém deixe de iniciar, troque ou adie um medicamento por causa do meu caso; estou apenas registrando a minha realidade financeira e a necessidade de discutir acesso.
Alendronato e vitamina D depois da densitometria
Depois que a densitometria mostrou osteoporose, o médico prescreveu alendronato 70 mg e vitamina D. O alendronato é semanal. Tomo em jejum, sentado, e permaneço sem deitar, comer ou tomar outros medicamentos durante os 30 minutos seguintes, como está escrito na minha receita.
Tenho usado a quarta-feira como dia habitual, mudando quando minha rotina não permite. Numa compra recente, três caixas de alendronato custaram R$ 29,22 no total.

A vitamina D foi prescrita porque meus exames mostraram nível baixo. A receita de 25/08/2026 que tenho em mãos registra colecalciferol 50.000 UI, uma cápsula por semana durante oito semanas. No meu relato, porém, entendi posteriormente que o uso seguiria de forma contínua. Como existe essa diferença entre o papel e a minha lembrança da orientação, isso precisa ser confirmado no acompanhamento médico antes de eu apresentar “uso contínuo” como regra do tratamento.
Na compra mais recente, a vitamina D 50.000 UI com 30 doses custou R$ 68,69, mais R$ 12,62 de frete, totalizando R$ 81,31. Minha mãe também tinha prescrição e dividimos o produto.
Minha história difícil com clonazepam
O clonazepam merece uma seção separada porque tenho uma lembrança muito ruim dele. Em 2010, durante a internação por sepse, eu já tinha usado poucas gotas em outras ocasiões. No CTI, pedi algo para conseguir dormir e recebi uma dose maior. Depois disso fiquei completamente desorientado, xinguei profissionais e tentei mexer nos acessos e aparelhos. Precisaram conter meus braços. Eu não tenho lembrança normal daquele comportamento.
Em 2026 pedi novamente uma receita para ter alguma opção nas noites em que não consigo dormir, principalmente quando a dor está muito forte. A receita atual registra clonazepam 2,5 mg/mL, oito gotas à noite, mas até o fim deste relato eu não tinha usado nenhuma gota dessa nova receita. Pelo episódio anterior e pelos problemas de memória e sedação que já percebi, esse é um medicamento que trato com muita cautela.
A própria rotulagem registrada na Anvisa alerta que o clonazepam é de venda sob prescrição médica e que o abuso pode causar dependência. Informações oficiais de medicamentos podem ser consultadas no Bulário Eletrônico da Anvisa.
Rosuvastatina: um uso por conta própria que eu não quero esconder
Também quero registrar um erro meu. Há cerca de 12 meses passei a tomar rosuvastatina 20 mg, um comprimido à noite, porque o colesterol vinha alto. O problema é que essa rosuvastatina tinha sido prescrita para minha mãe, não para mim. Eu não contei esse uso ao médico.
Comprei seis caixas com 30 comprimidos por R$ 121,44 e pretendo não manter esse uso quando o estoque acabar. Isso não é exemplo de automedicação a ser seguido. Medicamento prescrito para outra pessoa pode ter contraindicações, interações e necessidade de acompanhamento diferentes. O correto é cada tratamento ser revisto com o profissional que acompanha o paciente.
O que descobri sobre o Farmácia Popular ao revisar este artigo
Durante meu relato eu disse que nenhum desses medicamentos fazia parte do Farmácia Popular porque, na minha experiência, nunca retirei nenhum deles por esse programa e cheguei a tentar alguns sem conseguir. Depois do relato fechado, fui conferir a lista oficial atualizada do Ministério da Saúde e encontrei uma informação importante.
O elenco oficial do Farmácia Popular atualizado em 31/08/2026 inclui cloridrato de metformina 500 mg, inclusive a apresentação de ação prolongada, e alendronato de sódio 70 mg. Ou seja: embora eu tenha comprado Glifage XR e alendronato e tenha recebido a informação de que não estavam disponíveis na minha tentativa, os princípios ativos e apresentações constam hoje na lista nacional do programa.
Isso não significa que qualquer marca ou qualquer caixa esteja automaticamente disponível em toda farmácia. O programa trabalha com farmácias credenciadas e produtos cadastrados. Para retirar medicamentos, o Ministério da Saúde informa que é preciso documento com foto e CPF e receita válida. Pessoas impossibilitadas de comparecer podem usar representante legal ou procurador, seguindo a documentação exigida. As regras atuais estão na página oficial do Farmácia Popular.
A mesma lista inclui dapagliflozina 10 mg na indicação “diabetes mellitus + doença cardiovascular”. Como eu ainda não confirmei se me enquadro nesse critério específico, não vou afirmar que tenho direito ao Fosiga pelo programa apenas por ter diabetes. Isso precisa ser verificado com a prescrição, o diagnóstico e a farmácia credenciada.
Para colesterol alto, a lista atual traz sinvastatina, não rosuvastatina. Isso é mais um motivo para não tratar nome comercial, princípio ativo ou classe de medicamento como se fossem intercambiáveis por conta própria.
Custos, falta de estoque e burocracia também fazem parte do tratamento
Quando se fala em medicamentos na tetraplegia, não é só a receita que pesa. Existe deslocamento, renovação de receita, motoboy, falta de estoque e a incerteza de quantos meses de medicamento serão liberados. No meu caso, há remédios que consigo pelo posto, outro que retiro por um fluxo da Secretaria de Saúde e vários que ainda compro.
Alguns preços reais de 2026 que guardei em comprovantes foram: Retemic 5 mg com 60 comprimidos por R$ 66,99; quatro caixas de domperidona por R$ 22,36; três frascos de simeticona por R$ 14,37; Glifage XR 500 mg por R$ 7,99 numa promoção; três caixas de alendronato por R$ 29,22; vitamina D 50.000 UI por R$ 68,69 mais frete; e seis caixas de rosuvastatina por R$ 121,44. Os valores variam e são apenas registros das minhas compras, não pesquisa de preço.
Também pretendo organizar comprovantes de medicamentos, materiais de cateterismo e materiais para curativos para avaliar, com advogado ou Defensoria Pública, quais itens podem ser solicitados ao poder público. Se essa etapa avançar, este artigo será atualizado com o que realmente aconteceu, sem prometer resultado judicial para outras pessoas.
Fontes, segurança e futuras atualizações
Este artigo registra minha situação em setembro de 2026. Medicamentos mudam, receitas mudam, programas públicos mudam e meu próprio tratamento também pode mudar. Por isso, este registro de medicamentos na tetraplegia será atualizado quando houver nova consulta, mudança de fornecimento, decisão sobre o Fosiga, acesso a medicamentos pelo SUS ou qualquer alteração importante.
Para checar regras gerais, usei fontes oficiais do Ministério da Saúde sobre Farmácia Popular, Rename, Componente Básico da Assistência Farmacêutica e Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, além do Bulário Eletrônico da Anvisa.
Aviso de saúde: este texto é um relato pessoal. Não use minhas doses ou horários para iniciar, parar, substituir ou ajustar medicamentos. Quem usa vários remédios, especialmente em condições neurológicas crônicas, deve revisar a lista completa com médico e farmacêutico para reduzir riscos de interações, duplicidades e uso inadequado.




