cálculos renais e vesicais

Cálculos renais e vesicais na tetraplegia

Aviso: este texto relata a minha experiência pessoal com cálculos urinários depois da lesão medular. Não substitui avaliação de urologista nem serve como orientação para usar medicamentos, chás ou qualquer tratamento. Sangue visível na urina, febre, redução importante da urina ou piora dos sintomas precisam ser avaliados por um profissional de saúde.

Minha história com cálculos renais e vesicais começou em 2007, alguns anos depois da lesão medular. Desde então, já tive pedras no rim direito, pedras na bexiga, fiz dois procedimentos sem corte e, anos mais tarde, cheguei a eliminar várias pedras pela urina. Em 2026, depois de um longo período sem acompanhamento renal regular, os exames voltaram a mostrar alterações nos dois rins.

No meu caso, existe uma dificuldade importante: eu não sinto uma dor localizada no rim ou na bexiga como muitas pessoas descrevem. Quando alguma coisa no meu corpo está errada, muitas vezes a reação aparece de outra forma. A dor que percebo pode se manifestar nos dois braços e nas duas pernas, algo que também relatei no artigo sobre dor neuropática na tetraplegia.

A primeira descoberta: 2007

Em 2007 eu ainda fazia exames de acompanhamento com frequência no Hospital SARAH. Foi num desses exames de rotina que descobriram uma pedra no meu rim direito e também cálculos na bexiga.

Eu não tinha mudança na cor da urina, não tinha dificuldade para passar a sonda, não tinha suor nem espasmos por causa das pedras. O que estava chamando atenção naquele período era a pressão baixa. O médico que me acompanhava chegou a considerar que o cálculo poderia estar relacionado às reações que eu vinha apresentando. Eu não tenho como dizer que essa era realmente a causa — inclusive continuo tendo episódios de hipotensão na tetraplegia muitos anos depois.

Fiquei sendo acompanhado por aproximadamente um ano. O médico me explicava que, enquanto a pedra permanecesse numa determinada posição do rim e com aquele tamanho, ela não parecia representar risco imediato de bloquear o ureter. Depois, em outro exame, ele viu que a pedra havia mudado de posição e decidiu que era melhor retirá-la.

O procedimento no SARAH em 2008

Em 2008 fiz o primeiro procedimento. Na mesma intervenção foram tratados o cálculo do rim direito e os cálculos da bexiga.

Não houve corte. O acesso foi pela uretra. Eu me lembro de uma câmera e de um instrumento que chegava até as pedras, fragmentava e depois retirava ou aspirava os pedaços. Na época ouvi falar em “laser” e também lembro da sensação de explicarem como uma espécie de choque, mas não guardo o nome técnico exato do procedimento. Por isso não vou afirmar aqui qual tecnologia foi utilizada.

Fiquei aproximadamente três dias no SARAH. Cheguei durante o dia, fui internado, no dia seguinte fui cedo para o bloco cirúrgico e, depois de permanecer mais uma noite, recebi alta. Não fiquei com sonda de demora quando fui para casa.

Os exames posteriores indicaram que as pedras haviam sido retiradas. Durante algum tempo eu achei que aquele problema estivesse resolvido de vez.

2010: sepse, nefrite e uma nova descoberta

Em janeiro de 2010 tive o episódio mais grave de infecção urinária da minha vida, que evoluiu para sepse. Durante a internação fizeram ultrassonografia e outros exames para verificar como estavam os órgãos. Foi aí que descobriram cálculos novamente.

Naquela época, pelo que me lembro, havia pedras na bexiga e novamente no rim direito. O rim esquerdo não tinha cálculo.

Eu não retirei as pedras durante a internação da sepse. Fiz o procedimento algum tempo depois, provavelmente entre fevereiro e março de 2010, no Hospital Belo Horizonte, onde eu conseguia atendimento pelo plano de saúde que tinha naquela época.

Foi novamente um procedimento pela uretra e sem cirurgia aberta, muito parecido com o que eu havia feito no SARAH. Dessa vez saí com sonda de demora e também me lembro de terem deixado temporariamente um dispositivo dentro do ureter para mantê-lo aberto depois da manipulação. Voltei posteriormente para retirar esse dispositivo. Como eu não tenho o relatório cirúrgico daquela época, prefiro não dar um nome técnico a ele.

Durante a sepse eu também tive uma nefrite. Ao longo dos anos, fui informado de que aquela agressão deixou uma cicatriz no rim direito. Nunca me disseram uma porcentagem exata de perda de função daquele rim, então também não vou transformar isso em um número que eu não tenho.

Os anos seguintes e o acompanhamento no Rio de Janeiro

Depois de 2010 ainda fiz exames por alguns anos. Em determinado momento recebi alta do acompanhamento regular do SARAH em Belo Horizonte e passei um período grande sem investigação renal frequente.

Em 2014 fui morar no Rio de Janeiro. Lá consegui atendimento no SARAH do Rio e voltei a fazer exames, incluindo ultrassom. Foi constatado novamente cálculo no rim direito.

O SARAH do Rio não realizou cirurgia naquele momento. Foi nessa fase que aconteceu uma situação que ficou muito marcada para mim.

Quando eliminei muitas pedras por volta de 2016

Naquela época eu estava bebendo bastante água e também comecei a tomar um chá popularmente conhecido como “quebra-pedra”. Depois disso passei a eliminar pedras pela urina.

Teve uma que me assustou pelo tamanho. Pela minha lembrança, tinha aproximadamente 4 milímetros. Eu olhei aquilo e pensei: “Meu Deus, como isso saiu de dentro de mim?”. Além dessa, eliminei várias pedras pequenas.

Cheguei a guardar os cálculos num pequeno frasco. A quantidade de pedras ocupou aproximadamente metade dele, e eu ainda trouxe o frasco quando voltei para Belo Horizonte em 2017.

É importante separar uma coisa da outra: eu estava tomando o chá e eliminei pedras naquele mesmo período, mas isso não prova que o chá tenha dissolvido ou provocado a saída dos cálculos. Estou contando o que aconteceu comigo, não recomendando chá para tratar pedra nos rins ou na bexiga.

Na minha percepção, naquele período eliminei tudo o que estava descendo. Depois voltei a Belo Horizonte em 2017. Minha última passagem pelo SARAH antes do retorno mais recente foi em 2019.

Cálculos renais e vesicais na lesão medular: o que a medicina já sabe

Pessoas com lesão medular e disfunção neurogênica da bexiga fazem parte de um grupo que merece acompanhamento urológico cuidadoso. A Diretriz Europeia de Urolitíase inclui lesão medular e bexiga neurogênica entre as condições associadas a maior risco de formação e recorrência de cálculos. A mesma diretriz chama atenção para uma dificuldade que combina com a minha experiência: por causa das alterações de sensibilidade, a apresentação pode ser diferente e o diagnóstico pode acontecer sem a dor típica.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 reuniu 65 estudos, com mais de 64 mil pessoas com lesão medular, e encontrou incidência global de cálculos urinários de 16,6%. Os cálculos de bexiga foram os mais frequentes nessa população. Isso é informação geral de estudos — não significa que a minha bexiga neurogênica, o cateterismo ou uma infecção específica tenham sido a causa das minhas pedras.

Também não existe uma única cirurgia que sirva para todos. Tamanho, localização, quantidade, anatomia do sistema urinário e características do cálculo entram na decisão. Para cálculos renais grandes e para muitos cálculos complexos do tipo coraliforme, as diretrizes atuais frequentemente colocam a nefrolitotomia percutânea entre as principais opções. Já a cirurgia aberta ficou reservada a situações bem mais selecionadas. Isso não determina qual procedimento será indicado para mim em 2026: essa decisão ainda depende da avaliação do urologista e dos exames complementares.

O que apareceu nos meus exames em 2026

Em 2026 voltei ao SARAH e fiz uma ultrassonografia renal e das vias urinárias. O laudo é de 26 de junho de 2026.

O exame descreveu uma cicatriz no rim direito e estruturas que produziam sombra acústica ocupando parcialmente a pelve e os cálices do rim esquerdo, além de cálices inferiores do rim direito. O radiologista escreveu como hipótese: “cálculos coraliformes? ar no sistema coletor?”. Também registrou que não havia hidronefrose nem dilatação dos ureteres proximais e recomendou tomografia de abdome e pelve para caracterizar melhor as alterações.

Ultrassom do rim direito no acompanhamento de cálculos renais e vesicais

Imagem de ultrassom do rim direito realizada no Hospital SARAH em 2026
Ultrassom do rim direito realizado em 2026. Imagem pessoal do meu exame, com dados de identificação removidos.

Posteriormente, no relatório médico do SARAH de 25 de agosto de 2026, apareceu entre os diagnósticos a expressão “cálculos coraliformes bilaterais”.

Na consulta, o médico não usou comigo a palavra “coraliforme”. O que ele me explicou foi que a pedra do rim esquerdo era maior, precisava ser avaliada para retirada e poderia trazer risco de obstrução. Ele enfatizou mais o rim esquerdo e me orientou a procurar acompanhamento com urologista fora do SARAH.

Imagem de ultrassom do rim esquerdo realizada no Hospital SARAH em 2026

Imagem de ultrassom do rim esquerdo realizada no Hospital SARAH em 2026
Ultrassom do rim esquerdo realizado em 2026. Foi o lado que recebeu maior atenção na explicação médica por causa do tamanho do cálculo.

Uma diferença importante: desta vez não apareceu pedra na bexiga

Nos episódios de 2007–2008 e 2010, eu tinha cálculo no rim direito e também na bexiga. Em 2026 isso mudou: o laudo do ultrassom descreveu a bexiga com conteúdo límpido e sem cálculos.

Imagem de ultrassom da bexiga realizada no Hospital SARAH em 2026

Imagem da bexiga no ultrassom de 2026.

Diferentemente dos episódios antigos, o laudo atual não descreveu cálculo vesical.

Essa diferença é importante para mim porque mostra por que não gosto de juntar todos os episódios como se fossem a mesma coisa. Em fases anteriores havia pedra na bexiga e no rim direito. Agora o problema descrito está nos rins, bilateralmente.

O sangue na urina que venho percebendo

Há pelo menos seis meses venho tendo episódios de sangue visível na urina. Eu consigo diferenciar, pela minha experiência, aquele pequeno sangramento vermelho vivo que às vezes aparece quando a passagem da sonda machuca a uretra de outro padrão que tenho visto agora.

Em alguns episódios o sangue parece mais escuro e vem diluído na urina. No final do cateterismo pode sair um pouco de resíduo mais espesso e avermelhado.

Eu ainda não sei a causa. Pedra urinária pode estar associada a sangue na urina, mas existem várias outras possibilidades. O NIDDK, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, orienta que hematúria precisa ser investigada para identificar a origem. Por isso não vou atribuir automaticamente esse sangue aos cálculos antes da avaliação do urologista.

Cistatina-C: outro resultado que chamou atenção em 2026

Nos exames de sangue feitos pelo SARAH, a minha creatinina sérica estava em 0,97 mg/dL. Já a Cistatina-C veio em 1,44 mg/L, e o próprio laboratório calculou uma taxa de filtração glomerular estimada de 49 mL/min/1,73 m² por essa medida.

O médico me disse que havia alteração na avaliação renal e comentou que os cálculos poderiam estar envolvidos, mas não fechou uma causa para mim.

A Cistatina-C tem interesse especial em pessoas com lesão medular porque estudos mostram que estimativas baseadas apenas na creatinina podem superestimar a função renal quando existe redução importante de massa muscular. Mesmo assim, um número isolado não permite que eu conclua sozinho quanto cada rim funciona nem qual é a causa da alteração. Isso precisa ser interpretado junto com os demais exames e com a avaliação médica.

Minha situação em 2026: esta história ainda não terminou

Hoje, depois de anos convivendo com cálculos renais e vesicais em momentos diferentes da minha vida, estou novamente numa fase de investigação.

Até a publicação desta versão do artigo, eu ainda não fiz a tomografia recomendada no ultrassom e ainda não passei pelo novo urologista. Pretendo fazer essa consulta em breve e levar os exames do SARAH. A partir daí será preciso definir quais exames adicionais serão necessários e qual tratamento faz sentido para o meu caso.

Também quero saber se será possível novamente um procedimento pouco invasivo, como os que fiz em 2008 e 2010, ou se o tamanho e a localização dos cálculos atuais exigirão outra abordagem. Não vou antecipar essa resposta antes de ouvir o urologista.

Quando eu tiver a avaliação urológica e os próximos exames, vou atualizar este artigo. Se houver procedimento para retirada das pedras, volto aqui novamente e acrescento como foi a experiência.

O que essa experiência me ensinou

Durante muito tempo eu associei pedra a uma coisa que aparecia, era retirada e acabava. Hoje vejo de outra forma. No meu caso houve recorrência em fases diferentes da vida, e nem sempre meu corpo apresentou os sinais que uma pessoa espera de uma pedra no rim.

Por isso, para quem vive com lesão medular, eu considero importante não depender somente de “sentir dor” para saber como estão os rins e a bexiga. Acompanhamento, exames e avaliação urológica têm um peso ainda maior quando a sensibilidade está alterada.

Também aprendi a separar experiência pessoal de tratamento. Eu posso contar que tomei chá e depois eliminei pedras. Posso contar que bebi muita água naquela fase. Posso contar como foram as minhas cirurgias. Mas transformar qualquer uma dessas coisas numa receita para outra pessoa seria ir além do que a minha história pode provar.

Para entender melhor outros aspectos da minha rotina urinária, veja também os artigos sobre bexiga neurogênica, infecção urinária, disreflexia autonômica e minha experiência com o Hospital SARAH.

Dois itens que podem facilitar minha rotina

Esses itens não tratam nem previnem pedras nos rins ou na bexiga. São apenas acessórios que podem facilitar manter água por perto no dia a dia.

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Fontes médicas consultadas

Algumas fontes técnicas externas desta página estão em inglês.

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