Un fauteuil roulant à côté d'une Bible ouverte symbolise la foi et la tétraplégie.

Como a Fé Me Ajuda a Viver com a Tetraplegia

Quando falo sobre fé e tetraplegia, não estou falando de uma fé que nasceu depois do acidente. Eu me converti a Jesus Cristo em 1996, sete anos antes de sofrer a lesão medular que mudou minha vida em 20 de dezembro de 2003. Por isso, quando tudo aconteceu, eu já tinha uma caminhada com Deus, experiências na igreja e uma convicção que foi colocada à prova de uma forma que eu jamais poderia imaginar.

Este é um testemunho pessoal. Não quero romantizar a tetraplegia, dizer que quem tem fé não sofre ou apresentar minha experiência como regra para outras pessoas. Há dias de dor, medo, cansaço, questionamentos e pouca esperança. Mesmo assim, ao olhar para minha história, posso dizer que a fé em Cristo tem sido uma das bases que me sustentam.

Neste artigo

Minha fé começou antes da lesão medular

Em 1993, saí de Belo Horizonte e fui para o Rio de Janeiro em busca de trabalho. Venho de uma família humilde. Na década de 1980, chegamos a passar fome de verdade, de não ter o que comer dentro de casa. Eu queria trabalhar, ganhar um pouco mais e tentar construir uma vida diferente.

No Rio, trabalhei em sacolão, em uma empresa que recebia pedidos de compras por telefone, como porteiro de um prédio no Leblon e, mais tarde, em uma pequena mercearia que montei em sociedade. Tenho boas lembranças daquele período e das pessoas que conheci.

Antes da minha conversão, eu acreditava em Deus e em Jesus, mas hoje vejo que era muito mais uma crença religiosa do que uma vida com Deus. Eu não frequentava igreja e não procurava entender o que Deus queria para mim. Vivia minha vida, saía para festas e baladas e seguia em frente.

Depois do fim de um relacionamento, por volta de 1994, fiquei muito abalado. Houve momentos em que cheguei a pensar em acabar com a própria vida. Foi justamente naquele período que comecei a falar com Deus do meu jeito, sem igreja, sem conhecimento bíblico maior e sem alguém me ensinando como orar. Eu pedia que Ele me mostrasse o caminho verdadeiro.

Algum tempo depois, conheci Penha e Andréia. Foram elas que me levaram à Igreja Cristã Maranata, no Rio de Janeiro. Eu louvo a Deus por ter conhecido aquela igreja naquele momento da minha vida, porque, na minha experiência, foi ali que compreendi de outra forma quem era Jesus Cristo e o quanto Ele estava interessado na minha vida.

A primeira vez que entrei na igreja foi um impacto. Eu pensei: é aqui que eu quero ficar, é essa vida que eu quero para mim. A partir dali comecei um processo de mudança. Fui deixando hábitos, festas e outras coisas que não combinavam mais com aquilo que eu entendia como minha caminhada com Cristo. Não porque eu tivesse me tornado melhor do que ninguém, mas porque passei a entender santidade como separação para Deus.

Bible ouverte et chemin illuminé représentant le début du cheminement chrétien.

Minha vida na igreja antes do acidente

Minha conversão não ficou apenas na frequência aos cultos. Ainda no Rio, participei de um trabalho chamado Madrugada com Carinho. Saíamos durante a madrugada para conversar e trabalhar com pessoas em situação de rua, dependentes de drogas e prostitutas. Também participava de doações e de outras atividades da igreja.

Quando voltei para Belo Horizonte, em 1998, continuei envolvido com a igreja. Na minha compreensão espiritual, aquela volta também teve um propósito relacionado ao meu irmão, que mais tarde se converteu, foi batizado e, anos depois, acabou sendo assassinado.

Em Belo Horizonte, participei de igrejas da Assembleia de Deus. Ajudei a formar uma mocidade, fui presidente de jovens, professor de escola dominical e participei de cultos de libertação, inclusive orando pelas pessoas. Era uma fase de muita atividade na igreja.

Nos meses que antecederam o acidente, minha vida com Cristo continuava firme, embora eu estivesse triste por causa do fim de outro relacionamento e trabalhando demais. Eu prestava serviço para diferentes empresas e pessoas: banco, floricultura, cestas de café da manhã, entregas e sanduíches à noite. Muitas vezes terminava o trabalho no horário do culto e acabava não indo. Eu estava frequentando menos, mas continuava orando e buscando a Deus.

O dia do acidente e o que entendo como um livramento

Na manhã de sábado, 20 de dezembro de 2003, eu saí para trabalhar como fazia normalmente. Sempre que saía de moto, orava pedindo a Deus que me guardasse de acidente, roubo e outras situações.

Naquela época eu estava morando no porão de uma igreja. Naquela manhã havia um ciclo de oração e uma missionária de fora participando. Eu não a conhecia, e ela também não me conhecia. Eu apenas a vi antes de sair para trabalhar.

Meu acidente aconteceu no fim daquela manhã. Eu já contei os detalhes do acidente na página Mon histoire. Depois, ainda durante minha internação no Hospital João XXIII, aquela missionária foi me visitar e me contou algo que marcou minha vida.

Segundo o relato que ela me fez no hospital, depois do culto algumas irmãs foram até o local onde eu morava para orar. Ela caminhou pelos cômodos sem entender muito bem o motivo e, em determinado momento, teria dito: “Deus está dando um livramento de morte nesta casa, nesta hora, agora.”

O horário, segundo o que me contaram, coincidiu aproximadamente com o período do acidente. Por causa da gravidade da lesão que sofri, eu interpreto esse episódio como um livramento de morte. Essa é a minha leitura de fé sobre o que aconteceu naquele dia.

Eu quebrei o pescoço e fiquei tetraplégico, mas permaneci vivo. Muitas vezes penso: Deus poderia ter me poupado também da cadeira de rodas? Na minha fé, poderia. Por que não aconteceu assim? Eu não sei. Talvez um dia eu saiba. O que sei é que a vida continua sendo um dom de Deus.

Os 55 dias de internação

Durante os 55 dias em que fiquei internado, não faltaram pessoas ao meu lado. Irmãos da igreja, amigos e pessoas que não eram do meio religioso se revezavam para ficar comigo. Tinha hora que parecia até haver disputa para saber quem iria me acompanhar.

Eu orava sozinho e também orava com quem estava ali. Em nenhum momento deixei de acreditar que Deus estava comigo. Eu estava atordoado, tentando compreender o que tinha acontecido, e até hoje existem coisas que eu não entendo. Mas nunca enxerguei Deus como culpado pelo acidente.

Na minha compreensão, viver neste mundo significa estar sujeito a acontecimentos bons e ruins. Ter fé não me torna imune a sofrimento. Eu nunca tive a ideia de que ser cristão significaria viver sem doença, acidente, tristeza ou perda.

Não digo que Deus estava comigo porque eu merecia. Pelo contrário: para mim, isso fala do amor e da misericórdia dEle.

Dependência, medo e uma fé que também oscila

Depois da alta, a realidade da tetraplegia foi aparecendo no dia a dia. Para mim, uma das partes mais difíceis não é simplesmente estar numa cadeira de rodas. É depender de outras pessoas.

Eu dependo de ajuda para atividades básicas e isso traz uma preocupação constante com o futuro. Hoje, grande parte dessa ajuda vem dos meus pais, que também envelheceram e enfrentam suas próprias limitações. Isso gera medo. Às vezes gera ansiedade. A pergunta aparece: quem vai me ajudar amanhã?

Minha fé não elimina esse medo. Eu oro justamente porque ele existe.

Também não quero passar a impressão de que acordo todos os dias com a mesma força espiritual. Tem dia em que acordo com mais fé; tem dia em que acordo com menos. Tem dia de esperança e tem dia em que a esperança parece menor.

Hoje tenho dificuldade para ir fisicamente à igreja porque dependo de alguém para me levar, me acompanhar e me ajudar a sair de casa. Às vezes comparo isso a um carvãozinho que fica fora da churrasqueira: ele vai esfriando. Mesmo assim, estar afastado fisicamente da igreja não significa, para mim, ter abandonado Deus.

Dor, cansaço e o desejo de estar com Cristo

Os momentos de dor física são alguns dos mais difíceis. Já contei em outro artigo como é conviver com a dor neuropática na tetraplegia. Quando a dor fica muito forte, minhas orações nem sempre são bonitas ou organizadas. Às vezes eu simplesmente digo: “Senhor, não tem condição de viver com essa dor. Tem misericórdia de mim. Me dá força.”

Eu não posso negar que houve dias, e ainda há momentos, em que peço a Deus para me levar. Quando digo isso, estou falando do desejo de estar com Cristo e também do cansaço diante do sofrimento. Isso não significa que eu queira provocar a minha própria morte. Em plena consciência, eu jamais faria algo contra a minha vida.

Também nunca quis construir uma imagem falsa de que a tetraplegia é um “oba-oba”. Não é. Existem dores, internações, escaras, disreflexia, medo, rejeição, dependência e muitas renúncias. Ao mesmo tempo, eu também não vejo a tetraplegia como o fim de tudo. Continuo encontrando valor na vida.

Se você chegou a este texto porque está pensando em se machucar ou tirar a própria vida: isso é diferente do testemunho que estou contando aqui. No Brasil, o CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188. Em uma situação de urgência ou risco imediato, o SAMU atende pelo 192.

Perdas familiares e minha visão de eternidade

Depois da lesão, também precisei enfrentar perdas familiares muito duras. Um dos meus irmãos foi assassinado em janeiro de 2008. Outro irmão faleceu em 24 de maio de 2026.

Eu fico triste. A fé não apaga o luto. Mas minha visão cristã muda a maneira como encaro essas perdas. Eu tenho convicção, dentro daquilo que creio, de que meus irmãos estão com Cristo. Por isso, para mim, não é simplesmente um adeus; é um até logo.

Uma passagem que me acompanha há muitos anos é João 11:25, quando Jesus fala sobre ressurreição e vida. Também carrego comigo João 3:16, Isaías 55:6 e Isaías 43:2. Não são versículos que apareceram somente depois da tetraplegia. Eles fazem parte da minha caminhada cristã há muito tempo.

Dentro da minha crença, uma das coisas que mais me afligem é pensar em alguém morrer sem Cristo. Essa é uma convicção religiosa minha e faz parte da maneira como compreendo salvação e eternidade.

Un fauteuil roulant devant une fenêtre éclairée, symbolisant la foi et l'espoir.

Como alimento minha fé hoje

Eu gostaria de ler a Bíblia mais do que leio. Confesso isso sem problema. Entendo que o cristão precisa orar e conhecer a Palavra de Deus, mas minha rotina não é perfeita.

Procuro alimentar minha fé por meio da oração, de pregações, louvores, testemunhos e cultos online. Gosto muito de estudar assuntos relacionados à escatologia e ao arrebatamento. Também converso com outros cristãos e gosto de lembrar das experiências que já vivi com Deus.

E tem uma coisa curiosa: muitas vezes começo a assistir a um culto online e acabo dormindo. A Palavra de Deus me relaxa de um jeito que eu apago. Não vou fingir que isso não acontece.

O que significa dizer que Deus está no controle

Quando digo que minha vida está nas mãos de Deus ou que Deus está no controle, não quero dizer que atribuo diretamente a Ele tudo de ruim que acontece.

O que quero dizer é que acredito na soberania de Deus. Há coisas que Ele permite e que eu não compreendo. Eu não entendo por que foi permitido que eu sofresse aquele acidente. Não entendo por que minha vida foi poupada e a lesão permaneceu. Mas escolho confiar mesmo sem ter todas as respostas.

Romanos 8:28 é um dos textos que me vêm à mente: a ideia de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Eu não uso esse versículo para dizer que tudo o que acontece é agradável ou fácil. Para mim, ele fala de confiança em um propósito que muitas vezes eu ainda não consigo enxergar.

Nos dias de dor, essa confiança fica muito simples: “Senhor, tem misericórdia. Me dá força para passar por isso.” Às vezes é só isso.

Fé não substitui medicina

Há uma coisa em que sou muito claro: para mim, fé não é motivo para abandonar médico, exame, fisioterapia, tratamento ou qualquer outro cuidado necessário.

Já vi cristãos deixarem tratamento convencional porque acreditavam que seriam curados somente pela fé. Eu não concordo com isso. Acredito que Jesus cura, mas também acredito que a medicina deve ser usada e que exames podem mostrar o que está acontecendo no corpo.

Já vivi uma situação parecida dentro da própria família: alguém acreditou que havia sido curado de uma doença crônica e passou a agir como se o problema não existisse mais. Depois, a avaliação médica mostrou que a doença continuava presente. Aquilo reforçou em mim uma convicção: confiar em Deus não significa desprezar a medicina.

Uma passagem bíblica que uso para explicar como penso está em Marcos 1. Depois de curar um homem com lepra, Jesus o orienta a se apresentar ao sacerdote e cumprir o que a Lei de Moisés determinava.

“Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou.” — Marcos 1:44.

Para mim, essa passagem reforça que fé e uma verificação concreta não precisam ser inimigas. Se uma pessoa acredita que recebeu uma cura, não vejo problema nenhum em fazer exames e levar os resultados ao médico. Se houve cura, os exames podem ajudar a documentar isso. Se o problema continua, o tratamento não deve ser abandonado.

Eu confio em Deus e acredito que Ele pode usar médicos, profissionais de saúde, conhecimento e ciência no cuidado com a gente. Na minha vida, sem Cristo não dá. Mas sem a ajuda dos médicos também não dá. As duas coisas não precisam estar em guerra.

O que a pesquisa pode dizer sobre espiritualidade e lesão medular

Meu testemunho não prova que a fé produz o mesmo efeito em todas as pessoas com lesão medular. Cada pessoa tem sua história, sua crença e sua maneira de enfrentar a deficiência.

Uma revisão de estudos sobre espiritualidade, adaptação e resiliência após lesão medular (em inglês) analisou 28 trabalhos e encontrou associações entre espiritualidade e aspectos como satisfação com a vida, qualidade de vida, saúde mental e resiliência. Isso é uma associação observada nas pesquisas; não significa que a fé seja garantia de bem-estar, que evite depressão ou que substitua tratamento.

Outro estudo com profissionais de reabilitação (Inglês) também destacou que espiritualidade pode ter um papel importante para algumas pessoas após a lesão, mas pode ser vivida de maneiras muito diferentes. Para mim, esse cuidado é importante: minha fé é central na minha história, mas não devo transformar meu testemunho em uma obrigação para quem lê.

O que eu diria a uma pessoa recém-lesionada

Se uma pessoa cristã que acabou de sofrer uma lesão medular me perguntasse por que Deus permitiu aquilo, minha primeira resposta seria: eu também não sei por que Ele permitiu comigo.

Eu poderia ter morrido em 20 de dezembro de 2003. Na minha fé, acredito que Deus poupou minha vida. Ele também poderia ter me poupado da tetraplegia? Eu creio que sim. Por que minha vida foi preservada dessa forma? Ainda não tenho essa resposta.

Então eu não diria para alguém fingir que entendeu. Eu diria para confiar mesmo sem entender. Questionar não é a mesma coisa que abandonar Deus. Eu também tenho perguntas.

Para uma pessoa que não tem a mesma fé que eu, não quero fingir neutralidade sobre aquilo em que acredito: minha convicção cristã é que a salvação está em Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, não posso obrigar ninguém a viver a minha fé. Posso contar o que aconteceu comigo e dizer que, na minha história, Cristo foi e continua sendo fundamental.

Se não fosse Jesus na minha vida, diante de tantas dores, perdas, internações, rejeições, limitações e renúncias, eu sinceramente não sei como teria atravessado esses anos. Essa é a minha experiência.

Hoje continuo sem todas as respostas. Continuo tendo dias bons e ruins. Continuo precisando de ajuda das pessoas, dos médicos e de Deus. Continuo orando para que seja feita a vontade dEle na minha vida.

Depois de mais de duas décadas vivendo com tetraplegia e 30 anos de caminhada cristã, não posso dizer que a fé tornou minha vida fácil. Posso dizer outra coisa: ela me deu uma razão para continuar caminhando mesmo quando eu não conseguia entender o caminho.

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